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Por mais do mesmo

Recentemente, os profissionais de Jornalismo foram acometidos por uma novidade bastante polêmica: o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. A decisão tomada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), no último dia 17 de junho, tem como principal fundamento a questão de que a exigência representada pelo diploma é inconstitucional, tendo sido imposta na época do Regime Militar como forma de limitar o número de vozes ativas – e, conseqüentemente, de possíveis vozes discordantes ao regime.

Outro argumento usado pelo relator Gilmar Mendes para fundamentar a decisão é o de que “[…] danos a terceiros não são inerentes à profissão de jornalista e não poderiam ser evitados com um diploma.” Embora não seja por aqui que quero enveredar, parece-me bastante pertinente uma ressalva ao dito por Mendes. Para tanto, recorro à John Locke e sua Lei da Opinião, ou Lei da Reputação. Segundo Locke, existem 03 tipos de leis: a Lei Divina, a Lei Civil e a Lei da Opinião.

A primeira tem Deus como legislador e diz respeito às normas divinas, ao julgamento do bem e do mal em nossas ações; a Civil, por sua vez, refere-se às normas jurídicas presentes no convívio social; já a Lei da Opinião trata do que é considerado virtude ou vício em determinada sociedade. Ela, portanto, confere importância ao juízo feito pelos demais, uma vez que “ninguém poderia agüentar o desprezo e a não consideração de seus pares.”

Ora, então vejamos: uma atuação leviana e antiética de um jornalista pode sim gerar danos a terceiros, não? Como que antevendo um questionamento deste tipo, o relator afirmou também que “[…] as notícias inverídicas são grave desvio da conduta e problemas éticos que não encontram solução na formação em curso superior do profissional.” E tal alegação, acredito, é fortemente questionável, posto que o papel da graduação, mais do que conferir conhecimentos acerca da técnica envolvida no exercício da profissão, é formar um profissional preparado para atuar de maneira ética, sempre comprometido em levar à sociedade informações confiáveis e verídicas.

Seja como for, a medida coloca o Jornalismo, legalmente, nas mesmas condições de outro curso da área de Comunicação Social: o curso de Publicidade e Propaganda. Já para Relações Públicas, ainda existe, teoricamente, a exigência do diploma – teoricamente, pois basta bater na porta de qualquer Departamento de Comunicação ou RP para se certificar de que isto não é seguido à risca. A questão que quero abordar é, exatamente, a da importância dada, atualmente, ao diploma ou, mais precisamente, à formação acadêmica do futuro profissional.

Falando um pouco da minha experiência, como aluno da Universidade de São Paulo convivi com um curso voltado, basicamente, para a formação teórica do aluno – o que, devo dizer, é um balde de água fria para a grande maioria dos ingressantes. Seja pela gana de exercer a profissão, seja pela falta de maturidade ou interesse em perceber a importância do conteúdo passado, muitos concluem, apressadamente, que só há uma saída: a prática, ou seja, acelerar a entrada no mercado de trabalho.

Embora eu não possa dizer que sou um grande exemplo de dedicação às aulas, vejo claramente que esta saída cria um círculo vicioso bastante delicado:

  1. O aluno, desanimado com as aulas, opta em acelerar sua entrada no mercado de trabalho;
  2. Empresas e agências demandam serviços operacionais, os quais serão realizados por estes jovens universitários;
  3. Estando em uma empresa ou agência, inevitavelmente o aluno terá contato com a prática e esta, por sua vez, lhe servirá como conhecimento;
  4. Este tipo de conhecimento, mais rapidamente fixável e diretamente ligado à sua atuação profissional, passa a ser o conhecimento valorizado pelo aluno;
  5. Com isso, o conhecimento acadêmico acaba ficando em segundo plano, pois muitas vezes não é algo tão diretamente ligado à prática ou tão facilmente fixável;
  6. Ao aconselhar futuros ingressantes, sem dúvida estes alunos porão o conhecimento prático acima do teórico-acadêmico;
  7. E, por fim, isto só colaborará para o desânimo dos novos alunos com o curso – o que nos leva de volta ao tópico 01.

Sem dúvida, este modelo merece ressalvas. A primeira delas é que toda a generalização é burra – logo (e evidentemente), o ciclo não se aplica a todos os alunos. A segunda é que, de fato, há problemas, tanto na grade curricular quanto com o corpo docente, que colaboram decisivamente para o desânimo dos alunos. Outro ponto importante é que não se pode negar a importância da prática e, mais do que isso, o apelo que o exercício da profissão tem – ainda mais quando acrescentamos a esse apelo a remuneração. Também é pertinente salientar que, ao falar de “serviços operacionais”, não quero dizer que eles não devam fazer parte de um estágio – seria estúpido dizer isso –, mas considero uma pena que determinadas empresas deixem a cargo dos estagiários somente este tipo de tarefas.

Ressalvas feitas, acho imprescindível perceber que, neste contexto, o mercado se alimentará de profissionais que terão como base somente, ou majoritariamente, o próprio mercado. Não que isto seja ruim para os empregadores, mas certamente contribui – e muito – para a produção de funcionários-padrão. Contribui, assim, para que se crie mais do mesmo. Sem novidades, sem contestações. Apenas mais do mesmo (o que não significa necessariamente algo ruim, mas que muito provavelmente significará escassez de inovações).

Assim sendo, vejo que a discussão verdadeiramente importante sobre o diploma e seu valor deve ser travada não no STF, mas sim nas salas de aula, por alunos, docentes e coordenadores de curso. Isso sim proporcionará menos do mesmo – ou melhor, mais do novo.

Rodrigo Pezzotta

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Mais uma onda

Estreia nos cinemas, nessa sexta-feira, o filme A Onda, dirigido pelo alemão Dennis Gansel. O filme é baseado em uma história ocorrida com um professor de História Contemporânea do 2ª Grau, em Palo Alto, Califórnia, nos anos 60. Com dificuldade para explicar a aceitação do nazismo por parte dos alemães que não eram do Partido Nazista, ele cria um movimento desse tipo em sua sala de aula, para exemplificar. O movimento, entitulado de A Terceira Onda, sai do controle. Em 4 dias, ele já contava com mais de 300 pessoas de todas as partes da cidade, o que forçou o professor a dar um fim na brincadeira.

waveEsq: The Wave (1981). Dir: Die Welle (2008)

Um média-metragem já havia sido produzido para a TV em 1981 (disponível no Youtube, em Parte 1 e Parte 2). O que diferencia a nova produção alemã é que a experiência é transposta, mesmo que de maneira fictícia, para o período atual e para a Alemanha, berço do nazismo. Nessa adaptação, foram levados em conta, além dos costumes e da cultura, a evolução tecnológica. A ideologia é transmitida via SMS, o movimento conta com um MySpace, e por aí vai.

Me chamou a atenção, no entanto, a profundidade dessa adaptação. Ao fim do filme, fiquei com a sensação de que se os impactos dessas mudanças na comunicação fossem levados realmente a sério, talvez não fosse possível a transposição. Digo talvez porque acabei ficando com mais dúvidas que certezas. De qualquer forma, acredito que algumas coisas sejam pertinentes à comunicação.

A primeira questão é a interconectividade. No filme isso é mostrado razoavelmente bem entre os membros do grupo. Mas e o mundo lá fora? A princípio, tendi a crer que uma “lavagem cerebral” como o nazismo só era possível na época devido à falta de acesso à informação. As mídias eram massivas e relativamente fáceis de serem controladas. Fora isso, a fonte de informação de uma pessoa era reduzida a conhecidos das redondezas, o que tornaria esse tipo de controle bastante eficiente. Hoje em dia esse tipo de influencia ideológica – que precisa ser presencial – não tem como impor barreiras na comunicação digital, que conecta o mundo inteiro. Mas será que é suficiente?

Tenho a impressão que a internet não constitui um estímulo suficientemente poderoso para que se desacredite algum valor aprendido ao vivo. Quero dizer, é difícil um fórum te convencer de que alguma ação sua, ensinada por um professor (no caso do filme), está errada. Essa falta de prestígio, no entanto, não é inerente ao meio em si, mas sim ao grupo de relacionamentos que geralmente possuímos nele. Um e-mail de um desconhecido e o de um pai são e-mails do mesmo jeito, mas possuem pesos completamente diferentes. Isso traz à tona outro ponto: a credibilidade do emissor.

Foi citado, no exemplo anterior, um caso de credibilidade emocional: familiares, amigos, amantes. Mas muito mais importante para uma análise mais ampla são os papéis sociais dos emissores. Mais do que a competência propriamente dita – mas talvez em função desta – é a sociedade que dá a autoridade a determinadas entidades em assuntos específicos. Na grande maioria das vezes, damos valor às mensagens mais pelo status do emissor do que por um verdadeiro julgamento de suas capacidades. Isso ocorre nos mais variados campos de especialidade: doutores, jornalistas, astrólogos, políticos, vovós que fazem docinhos.

CPQ

Susan Boyle

Por incrível que pareça, isso também parece ocorrer com a publicidade. Certo tipo de mensagem só é aceita porque é categorizada como propaganda. Se eu dissesse a alguém – antes de ser lançado o comercial – que o KIA Soul não é um SUV, mas sim um carro design, seria motivo de riso. Como está no comercial, parece plausível. A argumentação – por mais que ela seja fruto de aprimoramento constante por décadas – só se torna possível à medida que o público aceita certo tipo de mensagem de um determinado emissor. Isso é importante, inclusive, para as formas menos ortodoxas de publicidade que, por não serem percebidas como tal, perdem essa certa autoridade em seu argumento. Algo a ser pensado.

Quanto à Onda, realmente não sei se seria possível nos dias de hoje. Por mais que eu não tenha achado a resposta, e esse post talvez tenha ficado um pouco viajado, as reflexões que o filme levanta, sobretudo da comunicação atual, são bastante relevantes. Recomendo.

Jannerson Xavier

A utilidade do inútil

Todo mundo sabe que o Twitter está cheio de coisa inútil. Segundo estudo da Pear Analytics, 40,55% do que é twittado são “posts do tipo ‘estou comendo um sanduíche agora’”, como os próprios definiram no relatório. Além disso, 37,55% são posts de conversas, que tendem a não ser muito úteis aos não envolvidos. Mais alguma porcentagem dedicada a spams e sobra bem pouca coisa útil.

Isso, no entanto, está longe de ser uma crítica. Por mais que o Twitter ainda seja uma ferramenta recente que, além da evolução técnica das próprias ferramentas, está em evolução conceitual por parte de seus usuários – assim como ocorreu com os blogs – não acredito que esse panorama vá mudar tanto assim. Simplesmente porque ele potencializa exatamente o que mais fazemos na vida: jogar conversa fora.

Fico imaginando se fosse feita uma pesquisa semelhante com as conversas pessoais no dia-a-dia. Com certeza uma parcela esmagadora seria taxada de “inútil”. Nada mais natural, portanto, que ferramentas que possibilitem um alcance massivo para essas inutilidades virem febre. O Youtube está aí para provar. De todo o tempo que você já passou no Youtube, quanto disso foi vendo coisas que te acrescentaram algo? E parando pra pensar, algo muito semelhante ocorre também nas mídias tradicionais.

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Estudo muito legal da Ruder Finn sobre intenção de uso da internet.

Seria natural, então, mandar esse pessoal desocupado tomar vergonha na cara e ir fazer algo da vida. Mas não. Acho completamente equivocado criticar esses 40% de inutilidade no Twitter ou as bizarrices do Youtube. Ninguém vive de conteúdo relevante 100% do dia. Acho até um pouco hipócrita quando ouço gente falando que “só tem coisa inútil no Twitter” enquanto passa o dia todo no Youtube ou atualizando a página inicial do Orkut.

Apesar de tudo isso, apenas um fator me faz defender esse “fenômeno do inútil”: a infinidade de opções. Na internet, por mais que eu passe horas fazendo nada de mais, assim que eu quiser posso buscar por algo relevante. Posso ser um careta que assina 300 RSS no Reader e acha perda de tempo ler qualquer coisa que não lhe acrescente, assim como posso ser alguém que posta “meu dia está ruim, espero que melhore” no Twitter. Há espaço para todos. Coisa que não acontece na mídia tradicional. Nesse caso, essa infestação de inutilidade assume um aspecto impositivo uma vez que não se pode escolher o que se vê. São duas ou três emissoras e, muito provavelmente, cada uma estará transmitindo algo tão ruim quanto as outras.

A certeza é que o inútil dá audiência, em qualquer mídia. Na internet, vejo a inutilidade como um suporte para o que é útil – como o espaço vazio no design. São aclamadas as funcionalidades de Youtube, Twitter, Flickr, Orkut, Facebook e etc, mas nenhuma delas seria o fenômeno que é se não possibilitasse um uso despretensioso e, porque não, inútil. Fato é que pouquíssima gente está produzindo algo realmente útil para que uma ferramenta se torne um fenômeno baseada somente em conteúdo relevante. Só nos resta agradecer a todo mundo que faz coisas inúteis, porque tornam possível a existência de coisas muito úteis.

Jannerson Xavier

Antes tarde demais do que nunca

Acho que todos já viveram situações em que se depararam com pessoas que tornam o cumprimento de uma obrigação uma espécie de mérito. Desde que passei a freqüentar reuniões de condomínio, por exemplo, sempre me incomodei com moradores que falavam em alto e bom som: “Nunca deixei de pagar o condomínio” ou “Sempre paguei o condomínio em dia”. Invariavelmente, me vinha à cabeça o mesmo pensamento: “Ok, não fez mais que a sua obrigação!”

Foi exatamente este pensamento que me acometeu quando tomei conhecimento da nova campanha da Telefônica SP,  o Telefônica em Ação. Mas, antes de tratar da campanha em si, é válido conhecermos um pouco da empresa em questão.

A Telefônica SP atua no mercado brasileiro desde 1998, quando comprou a Telesp, empresa estatal de telefonia do Estado de São Paulo. Possui 12 milhões de clientes de telefonia fixa e 2,1 milhões de clientes de internet banda larga, o Speedy. Ela pertence ao Grupo Telefônica, que é um dos 03 maiores conglomerados de telecomunicações do planeta, com atuação em 23 países e receita líquida superior a 20 bilhões de reais em 2007. Estamos, portanto, falando de uma líder de mercado.

Mais do que ser líder em seu segmento, a empresa também figura no topo de outro ranking. Este, no entanto, não lhe deve ser motivo de orgulho: o de empresas mais reclamadas da Fundação Procon-SP. Segundo dados obtidos junto à Assessoria de Imprensa da fundação, desde 1998 a Telefônica SP figura entre as 05 empresas mais reclamadas, com exceção aos anos de 2003 e 2004. Desempenho realmente louvável, não? Veja aí:

  • Entre 1998 e 2001: 1º lugar;
  • 2002: 4º lugar;
  • 2003 e 2004: não figurou entre as 05 mais reclamadas;
  • 2006 a 2008: 1º lugar.

Feita a devida contextualização, vamos então falar da campanha propriamente dita. Ela, basicamente, é uma tentativa de transformar um mea culpa da empresa em prestação de contas sobre o que está sendo feito para acabar com os problemas referentes ao mau-atendimento prestado aos clientes e ao déficit técnico do Speedy.

Peça para revista da campanha "Telefônica em Ação"

Peça para revista da campanha "Telefônica em Ação"

Disse lá em cima que meu pensamento ranzinza das reuniões de condomínio veio à mente porque, sendo bem claro, demorou muito para a campeã de reclamações tomar alguma atitude compatível com o tamanho do problema – bem, na realidade, se é compatível ou não, precisaremos aguardar algum tempo para saber ainda.

Seja como for, há de se ter algum respeito e conferir algum mérito à iniciativa. Embora não seja mais do que obrigação tudo o que a Telefônica SP está fazendo, vejo claramente um ponto positivo: ela está fazendo (assim como, dando o braço a torcer, aceito que um morador que paga, ao menos paga – e não atrapalha as contas do condomínio). Ou seja, há conteúdo por detrás da ação. Há, enfim, o que comunicar, o que informar. E isso traz, implicitamente, uma questão muito presente nas Relações Públicas: a questão ética. Para falar sobre isso vou, aqui, me ater a dois pontos que, diga-se de passagem, estão inter-relacionados.

O primeiro diz respeito a dois trechos que considero importantíssimos no Código de Ética dos Profissionais de Relações Públicas, mais precisamente em seu artigo 2º, que dispõe sobre o que é vetado ao profissional de RP. São eles:

d) Disseminar informações falsas ou enganosas ou permitir a difusão de notícias que não possam ser comprovadas por meio de fatos conhecidos e demonstráveis; e

f) Divulgar informações inverídicas da organização que representa.

Já o segundo ponto que quero tratar se relaciona com as alíneas acima pois, na realidade, é sustentado por elas. Valendo-me de uma analogia, costumo dizer que vejo a Comunicação – e as Relações Públicas, mais especificamente – como a cereja do bolo. Para deixar claro, o bolo pode ser entendido como a organização ou o produto que comunica. De forma alguma esse pensamento desmerece ou diminui a importância desta área. O que quero dizer com essa analogia é que considero imprescindível que toda e qualquer Comunicação, seja ela de uma empresa ou de um produto, trabalhe somente ações, valores e princípios que, de fato, sejam fundamentados.

Por exemplo, no caso da Telefônica SP, seria absurdo que ela implementasse uma campanha como o Telefônica em Ação sem que houvesse efetivamente esforços e ações para melhorar o atendimento e o serviço prestado. Os reflexos negativos de se comunicar algo inverídico seriam, invariavelmente, piores do que a continuação da inércia da empresa frente a estas questões.

De panfletos do comércio local a grandes campanhas de mega-empresas, não é raro vermos uma Comunicação pautada em valores bacanas e atraentes, mas não condizentes com a realidade. Por isso, mesmo sendo a Telefônica SP a autora da campanha e mesmo já estando mais do que tarde para que ela fizesse essas melhorias, me parece que ela merece um pontinho por isso. Antes tarde demais do que nunca, não?

Rodrigo Pezzotta

Colaboraram: Renata Maygton (que sugeriu o tema para este post) e Silvia H. C. (Assessora de Imprensa da Fundação Procon-SP)

Os meios e os fins

Media, resumidamente, é o ambiente através do qual se propaga a informação, a mensagem. É também o ambiente através do qual se propaga a grana pesada. A mídia é muito mais do que a responsável pela veiculação de entretenimento, notícias, cultura e etc, é uma indústria de proporções gigantescas fundadas sobre a pedra-fundamental da publicidade.

Koyaanisqatsi. 1982.

A vida em desequilíbrio

As diferentes mídias e os infinitos veículos que as compõem vivem em uma relação de simbiose com o ramo da publicidade e seus anunciantes. Enquanto os veículos proporcionam certo agrupamento de interesses pessoais, servindo de pontos de convergência de atenção e de segmentação de público para os anunciantes, esses últimos compram espaço na veiculação para divulgar o que quer que seja, bancando a produção de conteúdo por parte dos veículos, e o ciclo continua. Esse é o equilíbrio que sustenta a mídia. Ou era?

Pra variar só um pouquinho, a internet fez – e faz cada vez mais – seu estrago aqui também. Como bem sabemos, a produção de conteúdo na internet foi democratizada. Mas quando tocamos no assunto, tendemos a nos esquecer que isso não se aplica só a indivíduos, mas também a empresas e, enfim, todo tipo de instituição. Criou-se, então, um ambiente onde não se depende mais de veículos para transmitir conteúdo. Eles são criados e destruídos a todo o momento, veiculando a mensagem somente no período que interesse ao anunciante. Esse ambiente sem o monopólio dos veículos, no entanto, gera duas implicações imediatas.

A primeira é a desestabilização do equilíbrio citado acima. Os anunciantes movem seus recursos cada vez mais para a internet. Em resposta, os veículos tradicionais investem cada vez mais em suas versões online para sobreviverem. Esse investimento, no entanto, aparece mais como uma tentativa desesperada de sobrevida do que uma solução inovadora. O modelo permanece: criar conteúdo, angariar audiência e vender o espaço publicitário. O problema é que agora o espaço publicitário é ilimitado. Fazendo uma analogia com a televisão: é como se, ao invés de comprar um espaço na Globo, a Casas Bahia inaugurasse uma nova emissora, divulgasse o que fosse preciso, e depois fechasse. money É isso que se faz com hotsites, aplicativos para redes sociais, celulares e etc. Cria-se ações que são veículos em si. Isso, obviamente, sem falar na interatividade e imersão que a internet possibilita, se comparado a mídias tradicionais, mas isso não vem ao caso. De qualquer forma, como ficam os veículos tradicionais – e a massa consumidora – sem o precioso investimento da publicidade? De onde virá a grana?

A segunda questão é a audiência. Uma vez que se sai de um veículo conhecido, muito consumido, deve-se buscar um jeito de fazer as pessoas se interessarem por aquela peça de comunicação fora dos veículos. Esse é, ao meu ver, ao mesmo tempo o grande trunfo e fraqueza dessas ações “diretas”. Trunfo porque o público conquistado para a campanha quer, de fato, ver a campanha, e não assistir a um programa que é interrompido por ela. E fraqueza porque, pelo menos na minha percepção, muitas dessas campanhas que tem sites promocionais, realidades aumentadas, aplicativos e etc, angariam audiência através de inserções em mídias tradicionais. Isso torna esse tipo de comunicação meio secundária, dependente de outras e, portanto, não pode ser tratado como algo que vá substituir o antigo.

godinBom, eu não acredito que vá haver algum cataclisma das mídias tradicionais – até porque algumas ainda crescem – com os canais de televisão indo à falência, com programações cada vez mais precárias, por dispor de cada vez menos verba. Pra ser sincero eu fico bastante confuso quando penso que mesmo uma produtora não precisa vender seu programa para uma emissora, um jornalista não precisa vender seu serviço para o jornal, um DJ não precisa trabalhar para uma rádio para fazer sua programação e por aí vai. Fico me perguntando: se, aparentemente, não há mais a necessidade dos veículos como centralizadores, há porque eles continuarem existindo da maneira que os conhecemos?

Isso puxa a segunda questão. Por enquanto, os veículos funcionam como centralizadores dos interesses do público. Mas até quando? Creio que o amparo de mídias tradicionais para ações na internet esteja sujeito muito mais a uma mudança profunda no comportamento de uma sociedade em função da acessibilidade às tecnologias do que somente da elaboração de uma estratégia competente de comunicação.

Com todas essas mudanças a perder de vista, uma coisa é certa: o investimento cresce e a grana está indo para algum lugar. Os anunciantes sempre vão colocá-la onde lhes for melhor. Resta saber o que é melhor para eles.

Jannerson Xavier

É preciso mais do que (poder) ver para crer

Teoricamente, a campanha/promoção atual do jornal “O Estado de São Paulo” chega ao final na próxima segunda-feira, dia 10 de agosto.

Com o mote “Se hoje a informação é de graça, qual o valor do conhecimento?”, o Estadão, mais uma vez, assume uma postura ofensiva em relação às mudanças contemporâneas pelas quais os jornais passam. Vale lembrar que há dois anos, este mesmo jornal veiculou uma campanha bastante controversa, na qual, para ressaltar sua credibilidade, punha em xeque a credibilidade dos blogs. À época, como não poderia deixar de ser, a repercussão na grande rede foi bastante negativa. A campanha, diga-se de passagem, era realmente bastante agressiva e – pior – estupidamente generalizadora.

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A campanha vigente novamente trata de credibilidade – de reafirmar a credibilidade do jornal, na verdade. No entanto, justiça seja feita, esta é tratada de maneira bem mais inteligente, à medida que propõe ao futuro cliente que decida quanto pagar no primeiro mês de assinatura – e que, prolongando o raciocínio, ao desfrutar do conteúdo adquira a percepção de que o valor da mensalidade do periódico é, de fato, condizente com o conhecimento que se recebe.

Dito isto, chego ao ponto que me fez escrever o presente post: a questão da credibilidade na internet – pano de fundo, como já falado, da campanha aqui abordada.

Como é de conhecimento de todos, atualmente a internet permite acesso aos mais diversos tipos de conteúdos, sejam eles áudio, vídeo, imagens, textos, entre outros. Tudo está ao alcance das mãos, ou melhor, dos cliques. E, mais do que ter acesso, podemos, como e quanto quisermos, atuar como produtores de conteúdo.

E, se por um lado, a possibilidade de qualquer um de nós sermos geradores de conteúdo é a grande característica da internet atual, por outro temos de atentar para o fato de que quando todos podem participar, fica difícil, a princípio, conferir credibilidade a todo o conteúdo a que se tem acesso. Como já dito por aqui no post sobre Walter Cronkite, hoje a busca por boa informação não está mais na confiança em um meio, mas sim na busca infindável por algo bom em um mar de mediocridade.

Os jornais, embora passem por um momento de transformação (que, pode-se dizer, tem fortes contornos de crise em muitos países), ainda veem como seu maior ativo a credibilidade que, em geral, lhes é conferida. Segundo dados de pesquisa qualitativa feita pelo Instituto Ipsos Marplan e divulgada durante o 7º Congresso Brasileiro de Jornais, realizado em agosto do ano passado, os leitores dos jornais impressos ainda o consideram indispensáveis. Segundo este estudo, “o que mais agrada no jornal é que ele é matutino, palpável, tradicional, detalhado e abrangente. São essas características que conferem ao meio o grande pilar que é a credibilidade”.

Já com relação à internet, não podemos deixar de levar em consideração os inúmeros estudos que mostram solidamente o crescimento de seu uso como fonte de informação. Em alguns países, como os EUA, ela já é, inclusive, tida como a principal e mais confiável fonte. Neste contexto, é válido pontuar também a importância do amadurecimento e desenvolvimento da blogosfera – que, além de crescer a cada ano, tem ganhado corpo e buscado, crescentemente, entender e otimizar sua função na conjuntura atual.

Fato é que, no mar de mediocridade que ainda existe na web, gradativamente os conteúdos de qualidade vem à tona. E isso é um processo em curso, que certamente está longe de assumir traços finais, mas que também incontestavelmente já alterou o cenário que tinhamos no início da década de 1990.

Acredito que nem o mais ferrenho jornalista considere as mídias sociais um fenômeno que possa passar batido e que não leve a um rearranjo do cenário de distribuição e busca por conteúdo confiável. Assim como não acho que seja possível ouvir, nem do maior entusiasta da grande rede, que esta trará, futuramente, 100% de material de credibilidade.

Em geral, projeções de um futuro onde jornais e mídias sociais conviverão e serão complementares me parecem as mais plausíveis. E os caminhos que levarão a tal realidade já são conhecidos: aos jornais cabe o exercício de se readaptar, se atualizar; e às mídias sociais, cabe a tarefa de, cada vez mais, produzir conteúdo relevante e diferenciá-lo do lixo que seguir sendo publicado.

Rodrigo Pezzotta

Boas idéias dão resultado

Novamente falando sobre nossos colegas lusitanos, recebi esses dias um vídeo que eu, particularmente, gostei muito. Trata-se de uma ação criada pelos criativos da Fischer de Portugal, Bob Ferraz e Marcelo Mello, para incentivar as empresas a investirem na publicidade. Apesar de não ser tão recente – pelo que vi tem uns 3 meses – vale a pena pra quem ainda não viu.

Além da ótima idéia – na minha opinião – outra coisa me impressionou bastante quando resolvi dar uma pesquisada sobre o case: as duras críticas que o vídeo recebeu. Todas focando em um mesmo aspecto da ação: o suposto descaso dos criativos para com o famigerado Sr. Félix.

“Como sempre, a propaganda e o marketing exploram emocionalmente a miséria. Será que depois que esses incríveis profissionais de marketing provaram seu case, ganharam fama e glória com mais uma prova da criatividade da publicidade, ainda ajudaram o Sr. Felix ou ele voltou a ganhar seus 20 euros?”

É desse tipo de comentário – já com as devidas correções ortográficas – que estou falando. Ilustra bem o tom geral das críticas.

Tudo bem, eu concordo que, muito provavelmente, depois de terem arrecadado a grana pro Sr. Félix, deram tchau e nunca mais o viram, largando o coitado na rua (isso porque li que o cartaz ficou com ele, o que já é lucro!). Mas, afinal, quem disse que o propósito era tirar o Sr. Félix da rua?

O papo seria diferente se tivessem zoado com o indigente. Se tivessem filmado ele passando ridículo. Não foi o caso. Até onde o filme mostra, ele concordou em ficar ali, até porque ele não está acorrentado na placa. O mendigo ganhou, os criadores ganharam, o mundo da publicidade ganhou e os transeuntes também ganharam.

Tanto ganharam que deixaram muito mais dinheiro do que o normal, o que ilustra perfeitamente o abismo existente entre o consumidor e alguma “causa maior”. Já ouvi inúmeras vezes que não adianta pregar alguma luta mundial se ela não tange de maneira alguma a vida de seu público. E o Sr. Félix está aí pra mostrar que a única saída para aproximar a mensagem do receptor não é um argumento emocional. Basta – como se isso fosse simples – faze-lo participar. Neste caso, estamos falando de entretenimento. Tornou-se atração para os pedestres e, dando valor suficiente para a instalação do Sr. Félix, eles deixaram um trocado de bom grado. Sim, transformou-se miséria em entretenimento.

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Mas dessa vez não foi – como supostamente acontece no famigerado programa global – o miserável que se beneficiou? Pode-se alegar que isso foi só conseqüência do benefício primário, que foi a fama dos publicitários, mas me parece muito mais inteligente investir uns neurônios e uns trocos em cartolina para gerar benefício pra todos, do que tirar burramente 60 euros do bolso e dar pro indigente.

Pois é, sempre vai ter gente criticando, sobretudo a publicidade. Mas, bem se sabe, é também na publicidade que a crítica muitas vezes é reação dos inertes frente a uma criatividade que, felizmente, cada vez mais gera resultados à altura.

Jannerson Xavier