Archive for the 'Mídias Sociais' Category

E se as empresas olhassem o outro lado da moeda?

Entre uma visita a um blog aqui e outro ali, encontrei no PR 2.0 o seguinte post: When Social Networks are Blocked for Your Own Good. Nele, o autor discorre sobre como empresas e funcionários têm agido com relação ao uso das redes sociais.

Tomando por base um estudo da Robert Half Technology que aponta que 54% das empresas proíbem todo e qualquer uso das mídias sociais no ambiente de trabalho, o post ressalta o impacto que o uso destas mídias pode exercer na reputação do funcionário e, mais do que isso, enfatiza a necessidade de se tomar cuidado com o uso que se faz destas redes. Um link presente no post redireciona para outro texto que trata da preocupação crescente das empresas americanas com o vazamento de informações internas através de email, Orkut e Cia. Por fim, a última frase do texto sugere o seguinte proceder:

Em vez de dar razões para que as empresas, em última instância, bloqueiem importantes redes sociais e novas oportunidades, mostre-lhes no que elas estão em falta através de suas ações, pesquisas e palavras.

Pois bem, deixando o post de lado, começaram meus questionamentos. Grifei este trecho na frase acima porque, para mim, ele capta a essência de como as mídias sociais devem ser encaradas pelas empresas. Elas estão aí para que possamos expressar opiniões e pensamentos – são, enfim, um espaço para o exercício da liberdade. Será, então, que no delicado relacionamento entre empresa e funcionário, propiciado pelo meio digital, o melhor que a empresa tem a fazer é vigiar e controlar o funcionário? Em outras palavras: mesmo que seja mais fácil para a empresa eliminar as contrariedades, este é o melhor jeito de lidar com a situação?

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O uso que fazemos das redes sociais reflete, entre outras coisas, nossos valores, nossas preferências e nossas maneiras de pensar e agir. Ao usá-las, logo, expomos nossa visão de mundo sobre um dado assunto, seja ele do cotidiano, da nossa vida particular ou profissional. Considerando que o ambiente corporativo tem, ao longo dos anos, aumentado a atenção dada às relações entre os funcionários e entre estes e a empresa, investindo e conferindo importância estratégica ao chamado clima organizacional, é válido pensarmos que estas novas mídias podem ser extremamente úteis às empresas que realmente estiverem interessadas em melhorar seu ambiente de trabalho. Afinal, já que está tudo online, basta querer para se conhecer melhor o que pensa aquele rapaz do Administrativo, ou quais os hobbies da nova funcionária do Departamento Jurídico…

Acho que o desafio que aqui se impõe é o de fazer um uso competente das informações que estão disponíveis na web, à disposição de todos, inclusive da empresa. E, quanto a este desafio, dois pontos merecem destaque.

O primeiro é o fato de que me parece muito limitado que uma empresa se preocupe em controlar o que eu falo, ao invés de se importar com o que eu falo, não? Quando o funcionário tem de deixar de ser exatamente ele mesmo, para ser alguém que não incomode a empresa, fica delineado, ao menos para mim, uma certa inversão de valores. Conseguir se importar, mais do que querer controlar e cercear é, certamente, algo que se deve ter em mente neste processo.

O segundo ponto alude àquela velha máxima de que “quem não deve, não teme”. E embora este ditado, no mundo corporativo, diga mais respeito ao funcionário do que à empresa, o momento atual se mostra muito propício para que a empresa também passe a entender o seu significado. Para ficarmos apenas no campo do clima organizacional, vejamos: uma empresa que, de fato, respeita seus funcionários e os valoriza, muito provavelmente contará com empregados satisfeitos; estes, ao terem vontade de emitir alguma opinião acerca da empresa e de seu ambiente de trabalho, muito provavelmente o farão ressaltando aspectos positivos. Em contrapartida, uma empresa cuja preocupação com seu funcionário não passe de discurso (ou nem chegue a fazer parte do discurso), muito provavelmente não poderá impedir que isto seja externalizado, seja por meio de redes sociais, seja pela imprensa, seja até pelo alto índice de rotatividade de funcionários, etc. Definitivamente, controlar, cercear e retaliar são verbos que sofrem um duro golpe com as novas mídias, uma vez que, agora, todos tem direito à fala.

Os paradigmas comunicacionais mudaram e o mundo corporativo precisa compreender que, mais do que adaptações de suas antigas posturas a essa nova realidade, estas mudanças demandam posturas completamente novas. Afinal, há melhor forma de um funcionário mostrar à empresa quem ele é, como gostaria de ser tratado ou no que ela está em falta do que através da livre expressão de suas ideias?

Rodrigo Pezzotta

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Andando para trás

Sem nenhum grande buzz na comunicação ultimamente, me chamou a atenção ontem um curioso caso de, digamos, ma fé da Americanas.com. Sendo hoje talvez a mais conhecida loja de varejo eletrônico do Brasil, é de se espantar que seja justamente ela a responsável por algumas práticas vergonhosas das quais falarei um pouco.

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Em post no blog Cyberlawyer, o editor relata uma experiência que teve. Ao ver uma promoção do box de DVDs do Friends na página principal, tentou comprá-lo, mas foi surpreendido por outro preço na hora do pagamento. Após algumas investigações, melhor explicadas no próprio blog, conclui-se que é realmente uma mentira barata para atrair compradores – ou otários, como estes devem ser chamados no escritório dos caras.

Mas o que impressiona é a estratégia de comunicação da Americanas.com no twitter, descoberta pelo editor do blog ao procurar alguns retweets sobre seu post. Acredito que vale a pena dar uma conferida aqui. Chega a ser hilário. Pra quem ficou com preguiça ou de alguma maneira não captou o absurdo, há uma série de perfis falsos, com nomes e fotos de gente de verdade, que tecem elogios ininterruptamente à Americanas.com, lotando a busca por @americanascom boas opiniões.

Sim, não é o primeiro caso que vemos de uma empresa que, definitivamente, não entendeu o potencial das redes sociais. Esse caso, no entanto, merece destaque por um único motivo: ele vem justamente de uma empresa que foi extremamente competente em formular um negócio eletrônico e da qual se espera, portanto, competência em questões de internet. Ledo engano.

Mas é um engano bastante elucidativo. Costumamos brincar com toda essa verborragia de termos marketeiros sobre internet e tudo o mais, mas esse caso deixa bastante claro que web 2.0 é mais que motivo de piada pra quem entende o que é: é motivo de desgraça pra quem não entende.

Faço questão de usar o odioso termo web 2.0 para enfatizar que ela traz sim uma mudança. Sobretudo quando se vê essa bem sucedida empresa fundada nos primórdios da internet no Brasil empregar uma comunicação tão tosca quanto essa. Vê-se claramente uma publicidade anacrônica tentando subsistir em um ambiente que simplesmente não é compatível com seus métodos. O twitter não é apenas um facilitador de panfletagem. Divulgar um preço na página principal e cobrar outro propositalmente não só é anti-ético, é ilegal.

doveAlguns se aproximam da verdade, contanto que ela venda.

Falsidade não é algo intrínseco à propaganda. Ela é praticada na propaganda tradicional porque os métodos que o consumidor tem para evitá-la e denunciá-la são precários. Quando se emprega esses princípios em redes sociais o que se vê é uma empresa de respeito se rebaixando a práticas que eram comuns em salas de bate-papo do UOL ou Terra, no início da década. Deplorável.

A verdade é que os defeitos existentes na propaganda tradicional estão tão arraigados em nossa concepção de publicidade que o mercado está de cabeça para baixo frente à perspectiva de ter que fazer propaganda como ela sempre deveria ter sido: um ambiente de contato entre anunciantes e consumidores, visando beneficiar ambos. Infelizmente isso ainda está distante da indústria da dissimulação que se criou, mas os meios para que se alcance essa concepção ideal de propaganda estão surgindo, se é que já não existem.

A web foi um avanço tecnológico. A web 2.0 é um avanço ideológico. Eis porque ela é a grande responsável pelas drásticas mudanças que assolam o mercado da publicidade (e tantos outros). Assim como há ações bem feitas que nos indicam direções a serem tomadas, há casos como esse da Americanas.com que nos indicam por onde não ir. E se há uma direção para a qual não sei vai, é para trás no tempo.

Jannerson Xavier

Só podia ser ideia de político…

Se existe uma coisa mais batida que falar em web 2.0, é falar (mal) do cenário político brasileiro. E nossos governantes parecem realmente empenhados em nos dar motivos e mais motivos para deboches, desdéns e insatisfações.

Infelizmente, os sucessivos escândalos só servem para, crescentemente, distanciar a população da esfera política. O desânimo e o descrédito da população em relação aos políticos é, certamente, um forte indício desta cisão (que, entre outras coisas, é absurda, já que eles são os representantes que nós escolhemos!). Como é  evidente que uma discussão neste campo nos permitiria fazer deste post praticamente uma bíblia – o que, além de cansativo, destoaria do foco do blog, voltarei minha atenção para uma recente pérola que os engravatados de Brasília nos proporcionaram: a tentativa de estender à web as regulamentações eleitorais vigentes para a TV e para o rádio.

O texto, presente na reforma eleitoral (que chegou a ser aprovado pelo Senado), dispunha o seguinte:

Art. 57-D. Os conteúdos próprios das empresas de comunicação social e dos  provedores de internet devem observar o disposto no art. 45”.

Por sua vez, o art. 45 prevê que:

Art. 45. A partir de 1º de julho do ano da eleição, é vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário:

I – transmitir, ainda que sob a forma de entrevista jornalística, imagens de realização de pesquisa ou qualquer outro tipo de consulta popular de natureza eleitoral em que seja possível identificar o entrevistado ou em que haja manipulação de dados;

II – usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação, ou produzir ou veicular programa com esse efeito;

III – veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes;

IV – dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação;

V – veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos;

VI – divulgar nome de programa que se refira a candidato escolhido em convenção, ainda quando preexistente, inclusive se coincidente com o nome do candidato ou com a variação nominal por ele adotada. Sendo o nome do programa o mesmo que o do candidato, fica proibida a sua divulgação, sob pena de cancelamento do respectivo registro.

No entanto, com a queda da Lei de Imprensa, no último dia 30 de abril, tal proposição se tornou completamente inconstitucional, uma vez que o texto final deste julgamento deixa mais do que explicitado o caráter livre da web. O trecho a seguir é parte do resumo do texto final (enviado pelo ministro do STF, Carlos Ayres Britto, para publicação no Diário Oficial, no último dia 02 de setembro) e não deixa dúvidas:

[…] Silenciando a Constituição quanto ao regime jurídico da internet, não há como se lhe recusar a qualificação de território virtual livremente veiculador de ideias, debate, notícia e tudo o mais que se contenha no conceito essencial da plenitude de informação jornalística no nosso país.

Deste perigo a web parece, então, resguardada. Mas, na realidade, o que mais me chamou a atenção em tudo isso, foi o fato de que, ao cogitar impor esta ou aquela sanção ao conteúdo veiculado na internet, os políticos simplesmente mandaram às favas uma imensa utilidade que esta poderia ter – para eles e para o Brasil: auxiliar na reaproximação entre a esfera política e a população.

Ok, eu sei que quando digo “população” me refiro à fração dela que tem acesso à rede. Sei também que em um país como o Brasil, o distanciamento e a ignorância política são muito mais interessantes do que a informação e o debate, uma vez que colaboram – e muito – na manutenção do status quo. Mas, mesmo assim, seguirei meu pensamento baseado na premissa de que existem políticos íntegros que, de fato, querem dar uma nova cara à política brasileira.

Para estes, então, a grande rede é/pode ser uma aliada e tanto. E não precisamos ir muito longe para atestarmos isso. Vejamos: um pronunciamento, seja ele sobre o que for, seja de qual político for, é praticamente uma licença para mudar de canal ou dar aquele pulinho à cozinha ou ao banheiro, não? Em contrapartida, seguir um político pelo twitter é algo bastante aturável, para dizer o mínimo – eu, particularmente, acho muito interessante (clique aqui para saber quais políticos já tem perfil no twitter). E o mesmo pensamento pode ser estendido à blogs e demais mídias sociais.

Estas mídias, enfim, ao invés de serem alvos de restrições, seriam/serão muito mais úteis aos políticos se pensadas como plataformas viabilizadores do debate, da exposição de ideias, da saída da inércia em que nos encontramos. Utopias a parte, há muito potencial democrático nessas mídias (mesmo com as ressalvas outrora feitas aqui). Quanto aos políticos, já não afirmo com tanta segurança que existem muitos potenciais interessados nessas utilizações. De qualquer forma, acho que há o suficiente para começarmos.

Rodrigo Pezzotta

A utilidade do inútil

Todo mundo sabe que o Twitter está cheio de coisa inútil. Segundo estudo da Pear Analytics, 40,55% do que é twittado são “posts do tipo ‘estou comendo um sanduíche agora’”, como os próprios definiram no relatório. Além disso, 37,55% são posts de conversas, que tendem a não ser muito úteis aos não envolvidos. Mais alguma porcentagem dedicada a spams e sobra bem pouca coisa útil.

Isso, no entanto, está longe de ser uma crítica. Por mais que o Twitter ainda seja uma ferramenta recente que, além da evolução técnica das próprias ferramentas, está em evolução conceitual por parte de seus usuários – assim como ocorreu com os blogs – não acredito que esse panorama vá mudar tanto assim. Simplesmente porque ele potencializa exatamente o que mais fazemos na vida: jogar conversa fora.

Fico imaginando se fosse feita uma pesquisa semelhante com as conversas pessoais no dia-a-dia. Com certeza uma parcela esmagadora seria taxada de “inútil”. Nada mais natural, portanto, que ferramentas que possibilitem um alcance massivo para essas inutilidades virem febre. O Youtube está aí para provar. De todo o tempo que você já passou no Youtube, quanto disso foi vendo coisas que te acrescentaram algo? E parando pra pensar, algo muito semelhante ocorre também nas mídias tradicionais.

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Estudo muito legal da Ruder Finn sobre intenção de uso da internet.

Seria natural, então, mandar esse pessoal desocupado tomar vergonha na cara e ir fazer algo da vida. Mas não. Acho completamente equivocado criticar esses 40% de inutilidade no Twitter ou as bizarrices do Youtube. Ninguém vive de conteúdo relevante 100% do dia. Acho até um pouco hipócrita quando ouço gente falando que “só tem coisa inútil no Twitter” enquanto passa o dia todo no Youtube ou atualizando a página inicial do Orkut.

Apesar de tudo isso, apenas um fator me faz defender esse “fenômeno do inútil”: a infinidade de opções. Na internet, por mais que eu passe horas fazendo nada de mais, assim que eu quiser posso buscar por algo relevante. Posso ser um careta que assina 300 RSS no Reader e acha perda de tempo ler qualquer coisa que não lhe acrescente, assim como posso ser alguém que posta “meu dia está ruim, espero que melhore” no Twitter. Há espaço para todos. Coisa que não acontece na mídia tradicional. Nesse caso, essa infestação de inutilidade assume um aspecto impositivo uma vez que não se pode escolher o que se vê. São duas ou três emissoras e, muito provavelmente, cada uma estará transmitindo algo tão ruim quanto as outras.

A certeza é que o inútil dá audiência, em qualquer mídia. Na internet, vejo a inutilidade como um suporte para o que é útil – como o espaço vazio no design. São aclamadas as funcionalidades de Youtube, Twitter, Flickr, Orkut, Facebook e etc, mas nenhuma delas seria o fenômeno que é se não possibilitasse um uso despretensioso e, porque não, inútil. Fato é que pouquíssima gente está produzindo algo realmente útil para que uma ferramenta se torne um fenômeno baseada somente em conteúdo relevante. Só nos resta agradecer a todo mundo que faz coisas inúteis, porque tornam possível a existência de coisas muito úteis.

Jannerson Xavier

É preciso mais do que (poder) ver para crer

Teoricamente, a campanha/promoção atual do jornal “O Estado de São Paulo” chega ao final na próxima segunda-feira, dia 10 de agosto.

Com o mote “Se hoje a informação é de graça, qual o valor do conhecimento?”, o Estadão, mais uma vez, assume uma postura ofensiva em relação às mudanças contemporâneas pelas quais os jornais passam. Vale lembrar que há dois anos, este mesmo jornal veiculou uma campanha bastante controversa, na qual, para ressaltar sua credibilidade, punha em xeque a credibilidade dos blogs. À época, como não poderia deixar de ser, a repercussão na grande rede foi bastante negativa. A campanha, diga-se de passagem, era realmente bastante agressiva e – pior – estupidamente generalizadora.

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A campanha vigente novamente trata de credibilidade – de reafirmar a credibilidade do jornal, na verdade. No entanto, justiça seja feita, esta é tratada de maneira bem mais inteligente, à medida que propõe ao futuro cliente que decida quanto pagar no primeiro mês de assinatura – e que, prolongando o raciocínio, ao desfrutar do conteúdo adquira a percepção de que o valor da mensalidade do periódico é, de fato, condizente com o conhecimento que se recebe.

Dito isto, chego ao ponto que me fez escrever o presente post: a questão da credibilidade na internet – pano de fundo, como já falado, da campanha aqui abordada.

Como é de conhecimento de todos, atualmente a internet permite acesso aos mais diversos tipos de conteúdos, sejam eles áudio, vídeo, imagens, textos, entre outros. Tudo está ao alcance das mãos, ou melhor, dos cliques. E, mais do que ter acesso, podemos, como e quanto quisermos, atuar como produtores de conteúdo.

E, se por um lado, a possibilidade de qualquer um de nós sermos geradores de conteúdo é a grande característica da internet atual, por outro temos de atentar para o fato de que quando todos podem participar, fica difícil, a princípio, conferir credibilidade a todo o conteúdo a que se tem acesso. Como já dito por aqui no post sobre Walter Cronkite, hoje a busca por boa informação não está mais na confiança em um meio, mas sim na busca infindável por algo bom em um mar de mediocridade.

Os jornais, embora passem por um momento de transformação (que, pode-se dizer, tem fortes contornos de crise em muitos países), ainda veem como seu maior ativo a credibilidade que, em geral, lhes é conferida. Segundo dados de pesquisa qualitativa feita pelo Instituto Ipsos Marplan e divulgada durante o 7º Congresso Brasileiro de Jornais, realizado em agosto do ano passado, os leitores dos jornais impressos ainda o consideram indispensáveis. Segundo este estudo, “o que mais agrada no jornal é que ele é matutino, palpável, tradicional, detalhado e abrangente. São essas características que conferem ao meio o grande pilar que é a credibilidade”.

Já com relação à internet, não podemos deixar de levar em consideração os inúmeros estudos que mostram solidamente o crescimento de seu uso como fonte de informação. Em alguns países, como os EUA, ela já é, inclusive, tida como a principal e mais confiável fonte. Neste contexto, é válido pontuar também a importância do amadurecimento e desenvolvimento da blogosfera – que, além de crescer a cada ano, tem ganhado corpo e buscado, crescentemente, entender e otimizar sua função na conjuntura atual.

Fato é que, no mar de mediocridade que ainda existe na web, gradativamente os conteúdos de qualidade vem à tona. E isso é um processo em curso, que certamente está longe de assumir traços finais, mas que também incontestavelmente já alterou o cenário que tinhamos no início da década de 1990.

Acredito que nem o mais ferrenho jornalista considere as mídias sociais um fenômeno que possa passar batido e que não leve a um rearranjo do cenário de distribuição e busca por conteúdo confiável. Assim como não acho que seja possível ouvir, nem do maior entusiasta da grande rede, que esta trará, futuramente, 100% de material de credibilidade.

Em geral, projeções de um futuro onde jornais e mídias sociais conviverão e serão complementares me parecem as mais plausíveis. E os caminhos que levarão a tal realidade já são conhecidos: aos jornais cabe o exercício de se readaptar, se atualizar; e às mídias sociais, cabe a tarefa de, cada vez mais, produzir conteúdo relevante e diferenciá-lo do lixo que seguir sendo publicado.

Rodrigo Pezzotta

Constituição 2.0: uma iniciativa plenamente democrática?

Foi lançada, no último dia 11 de julho, em Portugal, pelo Instituto da Democracia Portuguesa (IDP), a Constituição 2.0 – projeto que visa à construção interativa de uma Constituição aberta e, para tanto, usará ferramentas colaborativas e interativas ao dispor dos utilizadores da Internet para criar uma Constituição viva para uma sociedade dinâmica.

As ferramentas utilizadas para a iniciativa são duas plataformas muito conhecidas hoje no mundo da internet:

Durante a ocasião, um dos organizadores do evento fez a seguinte colocação:

“Reconhecemos que as redes sociais na Internet se apresentam como uma ferramenta crucial para a sociedade civil se organizar e criar consensos sobre as questões fundamentais para o avanço do país.”

Debate de lançamento da iniciativa Constituição 2.0, no Museu das Comunicações de Lisboa

Debate de lançamento da iniciativa Constituição 2.0, no Museu das Comunicações de Lisboa

A iniciativa, sobretudo, mostra mais uma vez os reflexos da Web 2.0 (eu sei que ouvir essa expressão até irrita… mas paciência – aqui ela precisa ser citada) na sociedade contemporânea. Nesta era marcada pelo acesso ilimitado a conteúdos dos mais diversos tipos, bem como pela elaboração de materiais colaborativos, á disposição de qualquer um que acesse a grande rede, tudo convida à participação, à exposição da opinião e ao debate sobre os mais variados assuntos.

No entanto, há uma questão que não pode passar despercebida nesta reflexão: o fato de que tudo está “à disposição de qualquer um que acesse a grande rede”. Talvez o ponto que levanto fique mais explícito se mexermos um pouquinho na frase: tudo está “à disposição somente de quem acesse a grande rede”.

Ao pensarmos nos desdobramentos que iniciativas como uma Constituição 2.0 poderiam ter, a questão da exclusão digital, impreterivelmente, tem de ser levada em consideração. Segundo dados de 2007 do IBGE – Países@, apenas 35,20% dos brasileiros, por exemplo, tem acesso à internet. Em Portugal, país de origem da Constituição 2.0, os números não diferem muito: apenas 40% dos habitantes possuem acesso à world wide web.

É evidente que não se pode negar a realidade que os new media representam, tampouco ignorar que estamos em uma era que já tem (e terá cada vez mais) suas relações sociais amplamente influenciadas por estes meios. E, neste ponto, parece-me válido recorrer a Manuel Castells e sua teoria da network society para elucidar o impacto da exclusão social no mundo em que vivemos.  Com esta teoria, Castells interpreta a sociedade contemporânea como:

“[…] uma sociedade que se move da configuração substancialmente vertical das burocracias que governaram a humanidade por milênios – exércitos, estados, grandes empresas – para ir em direção a uma organização em rede.”

E esta mudança empreende também uma alteração nas relações de poder, pois fazer parte da rede – ou seja, estar dentro – se torna mais importante do que estar sobre na estrutura piramidal.

Assim sendo, aqueles que não estão dentro, os excluídos digitais, passam a estar à margem da sociedade. Por isso uma proposta como a Constituição 2.0 se mostra tão complexa.

Entendo que iniciativa lusitana está completamente alinhada com a lógica da network society e a considero um exemplo incrível de produção de material colaborativo promovido pelas redes sociais. No entanto, é importante que não deixemos de ter em vista que o processo de expansão do acesso à internet ainda está em curso em muitos países – estando, na maioria deles, longe de atender à maior parte da população. E, por isso, acredito que por enquanto é difícil que se use a internet como mecanismo de exercício pleno da democracia. Por enquanto…

Rodrigo Pezzotta

Somos o exército do… do quê?

Vi, já faz algum tempo, a notícia do lançamento de um novo aplicativo – ou “ferramenta para comunicação e colaboração na internet” – que o Google vai lançar no final desse ano. E apesar de já fazer uma ou duas semanas que vi isso, ainda tenho pensado bastante nas milhões de possibilidades que isso pode proporcionar.

Estou falando do Google Wave. Uma ferramenta que está sendo alardeada como revolucionária nas dinâmicas sociais na internet. Bom, é assim que a notícia chegou até mim e, na realidade, é assim que o próprio Google está comunicando. A primeira vista não me impressionou muito, mas depois de mais de uma hora de palestra sobre o novo programa pude ver o potencial absurdo disso.

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Para aqueles que, com razão, não vão ter saco de gastar 1h20 do seu dia pra entender o que é, faço um resumo: imagine uma ferramenta que, em seu mais básico, funcione como um MSN, Gmail e Google Docs ao mesmo tempo, somado a mais funcionalidades bem bacanas. Além disso, existem uma série de aplicativos que podem ser desenvolvidos para ele (já que ele será Open Source), como por exemplo um aplicativo para blogs. Então em um blog que utilizasse o Wave, um comentário seria convertido automaticamente, e em tempo real, em uma thread lá no Google Wave de quem quer que tenha adicionado o aplicativo no blog, e vice-versa.

Bom mesmo seria dar uma conferida para entender do que eu estou falando. Mas o que é importante é que ele possibilita uma convergência de dados de maneira absurda, como se todos os dados da internet fossem uma gigantesca wiki em tempo real. Um verdadeiro conhecimento coletivo. Até que algo mais revolucionário tome seu lugar, é claro.

E é essa questão do coletivo que chama atenção. De como as novas possibilidades da internet estão criando essa convergência de mentes e, talvez, trazendo de volta algo que vinha perdendo força, pelo menos em certos aspectos que serão abordados.

Estou falando das coletividades. Um grupo de pessoas unidas por algum ponto em comum. É importante frisar que essa união é consciente e voluntária, não estamos falando de categorização, de segmentação de público. O que se destaca dentre tantos “pontos em comum” existentes entre as pessoas é a ideologia, um conjunto de valores e crenças.

Porém mais importante que toda esta definição é compreender a noção de doação. A preterição do “eu” em favor do “nós”. O que digo que não existe mais – e obviamente não fui eu que criei essa idéia – é a crença real no valor coletivo acima dos valores individuais. O sacrifício em prol da causa. E exemplos da extinção desse compromisso não nos faltam. Chega a ser ridícula a busca desesperada pela tão sonhada autenticidade, a identidade pessoal. E o mundo da publicidade se refestela.

É exatamente por isso que chega a ser irônico que a internet, meio que potencializou essa “Era de Ouro do Egocentrismo”, transformando todos em celebridades, maximizando a difusão da individualidade, seja a responsável por trazer de volta a noção de uma coletividade com fim comum. Esse movimento já começou com as wikis, mas vejo que realmente a tendência é que se fortaleça cada vez mais.

Apesar de tudo isso, eu não acredito que essa “rendição ao coletivo” se dará da mesma forma de como foi um dia. Realmente não tenho pretensão de ver alguém dando a vida por alguma “causa 2.0”. E é exatamente esse o ponto: temos milhões unidos por algo, mas… pelo quê?

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Me parece realmente intrigante. Legiões de pessoas estão – e isso é fato – contribuindo em um conteúdo colaborativo, abdicando de autoria, ou seja, estão doando seu tempo, mas para qual fim? Com que objetivo?  O que move esse “sacrifício”? Apesar de não poder fazer muito mais do que conjecturar sobre a resposta, por enquanto, estou no aguardo da minha conta do Wave. Eu é que não vou ficar vendo o bonde passar.

Jannerson Xavier