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Só podia ser ideia de político…

Se existe uma coisa mais batida que falar em web 2.0, é falar (mal) do cenário político brasileiro. E nossos governantes parecem realmente empenhados em nos dar motivos e mais motivos para deboches, desdéns e insatisfações.

Infelizmente, os sucessivos escândalos só servem para, crescentemente, distanciar a população da esfera política. O desânimo e o descrédito da população em relação aos políticos é, certamente, um forte indício desta cisão (que, entre outras coisas, é absurda, já que eles são os representantes que nós escolhemos!). Como é  evidente que uma discussão neste campo nos permitiria fazer deste post praticamente uma bíblia – o que, além de cansativo, destoaria do foco do blog, voltarei minha atenção para uma recente pérola que os engravatados de Brasília nos proporcionaram: a tentativa de estender à web as regulamentações eleitorais vigentes para a TV e para o rádio.

O texto, presente na reforma eleitoral (que chegou a ser aprovado pelo Senado), dispunha o seguinte:

Art. 57-D. Os conteúdos próprios das empresas de comunicação social e dos  provedores de internet devem observar o disposto no art. 45”.

Por sua vez, o art. 45 prevê que:

Art. 45. A partir de 1º de julho do ano da eleição, é vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário:

I – transmitir, ainda que sob a forma de entrevista jornalística, imagens de realização de pesquisa ou qualquer outro tipo de consulta popular de natureza eleitoral em que seja possível identificar o entrevistado ou em que haja manipulação de dados;

II – usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação, ou produzir ou veicular programa com esse efeito;

III – veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes;

IV – dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação;

V – veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos;

VI – divulgar nome de programa que se refira a candidato escolhido em convenção, ainda quando preexistente, inclusive se coincidente com o nome do candidato ou com a variação nominal por ele adotada. Sendo o nome do programa o mesmo que o do candidato, fica proibida a sua divulgação, sob pena de cancelamento do respectivo registro.

No entanto, com a queda da Lei de Imprensa, no último dia 30 de abril, tal proposição se tornou completamente inconstitucional, uma vez que o texto final deste julgamento deixa mais do que explicitado o caráter livre da web. O trecho a seguir é parte do resumo do texto final (enviado pelo ministro do STF, Carlos Ayres Britto, para publicação no Diário Oficial, no último dia 02 de setembro) e não deixa dúvidas:

[…] Silenciando a Constituição quanto ao regime jurídico da internet, não há como se lhe recusar a qualificação de território virtual livremente veiculador de ideias, debate, notícia e tudo o mais que se contenha no conceito essencial da plenitude de informação jornalística no nosso país.

Deste perigo a web parece, então, resguardada. Mas, na realidade, o que mais me chamou a atenção em tudo isso, foi o fato de que, ao cogitar impor esta ou aquela sanção ao conteúdo veiculado na internet, os políticos simplesmente mandaram às favas uma imensa utilidade que esta poderia ter – para eles e para o Brasil: auxiliar na reaproximação entre a esfera política e a população.

Ok, eu sei que quando digo “população” me refiro à fração dela que tem acesso à rede. Sei também que em um país como o Brasil, o distanciamento e a ignorância política são muito mais interessantes do que a informação e o debate, uma vez que colaboram – e muito – na manutenção do status quo. Mas, mesmo assim, seguirei meu pensamento baseado na premissa de que existem políticos íntegros que, de fato, querem dar uma nova cara à política brasileira.

Para estes, então, a grande rede é/pode ser uma aliada e tanto. E não precisamos ir muito longe para atestarmos isso. Vejamos: um pronunciamento, seja ele sobre o que for, seja de qual político for, é praticamente uma licença para mudar de canal ou dar aquele pulinho à cozinha ou ao banheiro, não? Em contrapartida, seguir um político pelo twitter é algo bastante aturável, para dizer o mínimo – eu, particularmente, acho muito interessante (clique aqui para saber quais políticos já tem perfil no twitter). E o mesmo pensamento pode ser estendido à blogs e demais mídias sociais.

Estas mídias, enfim, ao invés de serem alvos de restrições, seriam/serão muito mais úteis aos políticos se pensadas como plataformas viabilizadores do debate, da exposição de ideias, da saída da inércia em que nos encontramos. Utopias a parte, há muito potencial democrático nessas mídias (mesmo com as ressalvas outrora feitas aqui). Quanto aos políticos, já não afirmo com tanta segurança que existem muitos potenciais interessados nessas utilizações. De qualquer forma, acho que há o suficiente para começarmos.

Rodrigo Pezzotta

É preciso mais do que (poder) ver para crer

Teoricamente, a campanha/promoção atual do jornal “O Estado de São Paulo” chega ao final na próxima segunda-feira, dia 10 de agosto.

Com o mote “Se hoje a informação é de graça, qual o valor do conhecimento?”, o Estadão, mais uma vez, assume uma postura ofensiva em relação às mudanças contemporâneas pelas quais os jornais passam. Vale lembrar que há dois anos, este mesmo jornal veiculou uma campanha bastante controversa, na qual, para ressaltar sua credibilidade, punha em xeque a credibilidade dos blogs. À época, como não poderia deixar de ser, a repercussão na grande rede foi bastante negativa. A campanha, diga-se de passagem, era realmente bastante agressiva e – pior – estupidamente generalizadora.

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A campanha vigente novamente trata de credibilidade – de reafirmar a credibilidade do jornal, na verdade. No entanto, justiça seja feita, esta é tratada de maneira bem mais inteligente, à medida que propõe ao futuro cliente que decida quanto pagar no primeiro mês de assinatura – e que, prolongando o raciocínio, ao desfrutar do conteúdo adquira a percepção de que o valor da mensalidade do periódico é, de fato, condizente com o conhecimento que se recebe.

Dito isto, chego ao ponto que me fez escrever o presente post: a questão da credibilidade na internet – pano de fundo, como já falado, da campanha aqui abordada.

Como é de conhecimento de todos, atualmente a internet permite acesso aos mais diversos tipos de conteúdos, sejam eles áudio, vídeo, imagens, textos, entre outros. Tudo está ao alcance das mãos, ou melhor, dos cliques. E, mais do que ter acesso, podemos, como e quanto quisermos, atuar como produtores de conteúdo.

E, se por um lado, a possibilidade de qualquer um de nós sermos geradores de conteúdo é a grande característica da internet atual, por outro temos de atentar para o fato de que quando todos podem participar, fica difícil, a princípio, conferir credibilidade a todo o conteúdo a que se tem acesso. Como já dito por aqui no post sobre Walter Cronkite, hoje a busca por boa informação não está mais na confiança em um meio, mas sim na busca infindável por algo bom em um mar de mediocridade.

Os jornais, embora passem por um momento de transformação (que, pode-se dizer, tem fortes contornos de crise em muitos países), ainda veem como seu maior ativo a credibilidade que, em geral, lhes é conferida. Segundo dados de pesquisa qualitativa feita pelo Instituto Ipsos Marplan e divulgada durante o 7º Congresso Brasileiro de Jornais, realizado em agosto do ano passado, os leitores dos jornais impressos ainda o consideram indispensáveis. Segundo este estudo, “o que mais agrada no jornal é que ele é matutino, palpável, tradicional, detalhado e abrangente. São essas características que conferem ao meio o grande pilar que é a credibilidade”.

Já com relação à internet, não podemos deixar de levar em consideração os inúmeros estudos que mostram solidamente o crescimento de seu uso como fonte de informação. Em alguns países, como os EUA, ela já é, inclusive, tida como a principal e mais confiável fonte. Neste contexto, é válido pontuar também a importância do amadurecimento e desenvolvimento da blogosfera – que, além de crescer a cada ano, tem ganhado corpo e buscado, crescentemente, entender e otimizar sua função na conjuntura atual.

Fato é que, no mar de mediocridade que ainda existe na web, gradativamente os conteúdos de qualidade vem à tona. E isso é um processo em curso, que certamente está longe de assumir traços finais, mas que também incontestavelmente já alterou o cenário que tinhamos no início da década de 1990.

Acredito que nem o mais ferrenho jornalista considere as mídias sociais um fenômeno que possa passar batido e que não leve a um rearranjo do cenário de distribuição e busca por conteúdo confiável. Assim como não acho que seja possível ouvir, nem do maior entusiasta da grande rede, que esta trará, futuramente, 100% de material de credibilidade.

Em geral, projeções de um futuro onde jornais e mídias sociais conviverão e serão complementares me parecem as mais plausíveis. E os caminhos que levarão a tal realidade já são conhecidos: aos jornais cabe o exercício de se readaptar, se atualizar; e às mídias sociais, cabe a tarefa de, cada vez mais, produzir conteúdo relevante e diferenciá-lo do lixo que seguir sendo publicado.

Rodrigo Pezzotta

E o jornalismo segue em frente

Morreu, sexta-feira passada, dia 17 de Julho, Walter Cronkite. Um dos âncoras mais conhecidos da história dos Estados Unidos, ele apresentou o CBS Evening News nas décadas de 60 e 70, durante alguns dos momentos mais conturbados da história recente do país. Mais que isso, ele representa uma era de centralização do jornalismo, no qual toda a atividade do periódico – no caso o CBS Evening News – era ditada pelo editor, que também era o apresentador e, por que não, emitia uma opinião aqui e ali, seja por palavras, tons de voz ou apenas gestos sugestivos. Um exemplo, dos 5min pra frente:

Jeff Jarvis, por sua vez, é um jornalista americano que atua como blogueiro desde o 11 de Setembro. Seu blog, o BuzzMachine, denuncia uma série de problemas com companhias – geralmente relacionados a problemas pessoais que ele teve – e, enfim, aborda o mundo de um ponto de vista bastante “2.0”. Mesmo longe de ser o principal representante, Jarvis é ferrenho defensor das possibilidades de integração que a internet proporciona, incluindo o jornalismo.

“Sem desrespeitar Cronkite, mas estou feliz que tenha passado a era do âncora oráculo”.

Isso é o que Jarvis twittou na ocasião da morte de Cronkite. É impossível dizer o que ele quis dizer exatamente com isso. Ainda assim, sabendo o perfil desses dois jornalistas, não é difícil especular alguns significados, o que me parece gerar algumas questões com implicações bastante profundas acerca da credibilidade versus acessibilidade de informações. Vejam bem, não sou jornalista, mas acredito sim que essa questão colabore decisivamente na compreensão do campo da comunicação como um todo.

O que me parece mais decisivo na crítica de Jarvis é a centralização do jornalismo, o “oráculo”. Isso, mais do que um avanço exclusivo do campo do jornalismo, é um avanço na comunicação como um todo. Se antes tínhamos domínio absoluto de mídias de massa onde um emissor falava o que bem entendia, hoje temos a internet, na qual todos falam o que bem entendem, e vêem o que lhes interessa. De fato isso parece muito atrativo, mas estaria qualquer pessoa apta a emitir sua opinião assim?

Não estou questionando o direito, mas sim a aptidão. Ora, não deve ser a toa que se estuda tanto para ser um profissional qualificado (embora eu saiba que essa afirmação soa quase cínica no campo da comunicação). O jornalista depende da credibilidade que lhe é dada. Imagino que esta mudança do jornalismo centralizado para o democratizado se enquadre em uma tendência (que devo falar no próximo post) da troca da qualidade pela quantidade. Em mídias de massa, o custo de produção é muito alto e a competição é acirrada, portanto torna-se questão primordial a busca por qualidade nos programas. Já na internet, o custo é quase zero, então não tem problema ser algo “meia boca” porque, no máximo, o cara vai ter perdido algum tempo postando algum conteúdo que não foi visto por ninguém. Resultado: a busca por boa informação não está mais na confiança em um meio, mas sim na busca infindável por algo bom em um mar de mediocridade.

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A outra questão que me parece central é a da imparcialidade. Mais do que uma mera reflexão, a opinião é extremamente perigosa no jornalismo porque é definitiva no conteúdo passado, no recorte que será realizado e transmitido, baseado em um fato real. Em mídias estabelecidas, digamos assim, é o periódico que fala, e a qualidade de sua informação põe sua imagem em jogo. No caso de uma pessoa física que fala sobre algum evento em seu blog, o objetivo é justamente mostrar sua opinião pessoal. Por sei só, isso já tira qualquer credibilidade jornalística da grande maioria das informações que há em conteúdos colaborativos. Obviamente que se o objetivo é justamente fazer a leitura dessas opiniões pessoais mundo afora, a internet corresponde perfeitamente, enquanto as mídias tradicionais, com entrevistas e pesquisas, dificilmente atingirão tamanha precisão.

Sem dúvidas Jarvis tem seu mérito. As possibilidades que foram abertas por blogs, twitter e Cia são importantíssimas. Possibilitam, por exemplo, cobertura e instantaneidade inviáveis para um jornal tradicional, movendo suas equipes de lá pra cá. Ainda assim, acho que diferentes procedências requerem e possibilitam diferentes emissores. Assim como o destrato de companhias com consumidores é magnificamente denunciado por autônomos e seus blogs, uma correspondência de guerra ou informações internas do governo dificilmente serão cobertos com competência por essas mídias.

Mais do que competir, acredito que esses dois modelos se complementam. Jeff Jarvis tem sua parcela de razão em seu comentário no twitter. Mesmo assim não acredito que ele ache mesmo que esse “jornalismo 2.0” que ele mesmo pratica irá substituir totalmente o “jornalismo oráculo” de Walter Cronkite. Eles coexistirão, pelo menos por mais bastante tempo, alargando sempre mais nosso acesso a informações.

Jannerson Xavier

O tal do blog da Petrobrás

Política da casa de vidro… Política de portas abertas…  Seja qual for a escola teórica a que nos apeguemos, a questão da transparência organizacional é tema recorrente nas Relações Públicas. Mais do que recorrente, é extremamente atual, ainda mais em tempos de web 2.0.

E, desde o último dia 02 de junho, a Petrobras passou a figurar em primeiro plano nas discussões desta seara. Nesta data, ela lançou seu blog, o “Fatos e Dados”. Nele, como a própria Petrobrás afirma, a intenção é apresentar “fatos e dados recentes da Companhia e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).”

Sergio Gabrielli: "Vocês querem transparência?"

Sergio Gabrielli: "Vocês querem transparência?"

Sensacional do ponto de vista da transparência, certo? Certo. Porém, nos atermos apenas ao fato de esta ação ser um amplo e bem articulado passo no sentido da transparência organizacional não contempla plenamente o assunto. Grande parte da repercussão inicial do blog da estatal diz respeito ao fato de, nele, a empresa publicar perguntas e pedidos de informação de jornalistas, o que, como bem define Rogério Christofolleti em seu blog Monitorando, “provoca uma situação nova nas relações entre fontes e jornalistas no país, já que pode prejudicar investigações sigilosas, alertar concorrentes sobre matérias em andamento ou mesmo evidenciar que os veículos de comunicação distorcem ou corrompem algumas informações ao divulgá-las.”

As reações à isto, como não poderiam deixar de ser, foram imediatas. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em nota oficial, disse:

“Ao agir dessa forma, a Petrobras inibe os meios de comunicação e os jornalistas que precisam verificar com a empresa informações de eventuais reportagens que serão veiculadas. A estatal deve rever essa prática para preservar um relacionamento profissional com os meios de comunicação e jornalistas, que têm o direito de manter suas apurações em sigilo antes da veiculação do produto final.”

Tendo em vista a amplitude da discussão, é fundamental, para desenvolvermos um raciocínio, que tenhamos em vista o seguinte: as possibilidades crescentes de interação e de relacionamento entre emissor e receptor que a tal web 2.0 viabiliza criam um campo vasto e rico a ser explorado pelas organizações (e o blog da Petrobras exemplifica muito bem isso). Dada essa realidade – que, convenhamos, não é mais novidade para ninguém –, é compulsório que ocorram mudanças no fluxo de informação. E o jornalismo contemporâneo tem (ou está tendo – sim, aqui cabe um gerúndio – ou terá) que aprender a conviver e lidar com isso.

É evidente que, ao manter um canal direto com seu público, a Petrobras ganha pontos (leia-se moral) com este. E isso, em tempos de crise (não esqueçamos que a Petrobras está prestes a enfrentar uma CPI – que deve ter início nesta terça-feira, dia 14 de julho) permite que menos ruídos ocorram. Vejam bem, não estou dizendo que a cobertura jornalística promove ruídos na informação, apenas estou pontuando que uma ferramenta como o blog dispensa a mediação das mídias tradicionais, o que encurta o fluxo da informação. Além disso, o “Fatos e Dados” possibilita um diálogo entre a estatal e a sociedade, o que, inegavelmente, não está ao alcance das mídias convencionais.

Não ousarei aqui promover uma conclusão, seja ela qual for. Mas casos como o blog da Petrobras deixam mais claro que o jornalismo, para sobreviver, precisa extrapolar as convenções até então vigentes e se renovar – muito embora a questão da quebra do sigilo seja delicada e mereça a devida atenção, posto que põe em xeque uma premissa jornalística. E, não obstante a isso, também evidencia o ganho de importância de um pensamento holístico de Relações Públicas em prol dos interesses de uma organização.

Rodrigo Pezzotta