E se as empresas olhassem o outro lado da moeda?

Entre uma visita a um blog aqui e outro ali, encontrei no PR 2.0 o seguinte post: When Social Networks are Blocked for Your Own Good. Nele, o autor discorre sobre como empresas e funcionários têm agido com relação ao uso das redes sociais.

Tomando por base um estudo da Robert Half Technology que aponta que 54% das empresas proíbem todo e qualquer uso das mídias sociais no ambiente de trabalho, o post ressalta o impacto que o uso destas mídias pode exercer na reputação do funcionário e, mais do que isso, enfatiza a necessidade de se tomar cuidado com o uso que se faz destas redes. Um link presente no post redireciona para outro texto que trata da preocupação crescente das empresas americanas com o vazamento de informações internas através de email, Orkut e Cia. Por fim, a última frase do texto sugere o seguinte proceder:

Em vez de dar razões para que as empresas, em última instância, bloqueiem importantes redes sociais e novas oportunidades, mostre-lhes no que elas estão em falta através de suas ações, pesquisas e palavras.

Pois bem, deixando o post de lado, começaram meus questionamentos. Grifei este trecho na frase acima porque, para mim, ele capta a essência de como as mídias sociais devem ser encaradas pelas empresas. Elas estão aí para que possamos expressar opiniões e pensamentos – são, enfim, um espaço para o exercício da liberdade. Será, então, que no delicado relacionamento entre empresa e funcionário, propiciado pelo meio digital, o melhor que a empresa tem a fazer é vigiar e controlar o funcionário? Em outras palavras: mesmo que seja mais fácil para a empresa eliminar as contrariedades, este é o melhor jeito de lidar com a situação?

redes-sociais

O uso que fazemos das redes sociais reflete, entre outras coisas, nossos valores, nossas preferências e nossas maneiras de pensar e agir. Ao usá-las, logo, expomos nossa visão de mundo sobre um dado assunto, seja ele do cotidiano, da nossa vida particular ou profissional. Considerando que o ambiente corporativo tem, ao longo dos anos, aumentado a atenção dada às relações entre os funcionários e entre estes e a empresa, investindo e conferindo importância estratégica ao chamado clima organizacional, é válido pensarmos que estas novas mídias podem ser extremamente úteis às empresas que realmente estiverem interessadas em melhorar seu ambiente de trabalho. Afinal, já que está tudo online, basta querer para se conhecer melhor o que pensa aquele rapaz do Administrativo, ou quais os hobbies da nova funcionária do Departamento Jurídico…

Acho que o desafio que aqui se impõe é o de fazer um uso competente das informações que estão disponíveis na web, à disposição de todos, inclusive da empresa. E, quanto a este desafio, dois pontos merecem destaque.

O primeiro é o fato de que me parece muito limitado que uma empresa se preocupe em controlar o que eu falo, ao invés de se importar com o que eu falo, não? Quando o funcionário tem de deixar de ser exatamente ele mesmo, para ser alguém que não incomode a empresa, fica delineado, ao menos para mim, uma certa inversão de valores. Conseguir se importar, mais do que querer controlar e cercear é, certamente, algo que se deve ter em mente neste processo.

O segundo ponto alude àquela velha máxima de que “quem não deve, não teme”. E embora este ditado, no mundo corporativo, diga mais respeito ao funcionário do que à empresa, o momento atual se mostra muito propício para que a empresa também passe a entender o seu significado. Para ficarmos apenas no campo do clima organizacional, vejamos: uma empresa que, de fato, respeita seus funcionários e os valoriza, muito provavelmente contará com empregados satisfeitos; estes, ao terem vontade de emitir alguma opinião acerca da empresa e de seu ambiente de trabalho, muito provavelmente o farão ressaltando aspectos positivos. Em contrapartida, uma empresa cuja preocupação com seu funcionário não passe de discurso (ou nem chegue a fazer parte do discurso), muito provavelmente não poderá impedir que isto seja externalizado, seja por meio de redes sociais, seja pela imprensa, seja até pelo alto índice de rotatividade de funcionários, etc. Definitivamente, controlar, cercear e retaliar são verbos que sofrem um duro golpe com as novas mídias, uma vez que, agora, todos tem direito à fala.

Os paradigmas comunicacionais mudaram e o mundo corporativo precisa compreender que, mais do que adaptações de suas antigas posturas a essa nova realidade, estas mudanças demandam posturas completamente novas. Afinal, há melhor forma de um funcionário mostrar à empresa quem ele é, como gostaria de ser tratado ou no que ela está em falta do que através da livre expressão de suas ideias?

Rodrigo Pezzotta

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A maior ação de comunicação do mundo

Nesta sexta-feira, dia 02 de outubro, o COI (Comitê Olímpico Internacional) anunciará, em Copenhague, a cidade que receberá os Jogos Olímpicos de 2016. Tóquio, Madrid, Chicago e Rio de Janeiro são as candidatas finalistas e, segundo analistas, a representante brasileira desponta como favorita, juntamente com a americana Chicago.

Sérgio Cabral (3° da esq. p/ a dir.): "O papel que era do Obama na campanha presidencial agora é nosso. Fazemos o mesmo discurso dele: nos deem esta chance."

Sérgio Cabral (3° da esq. p/ a dir.): "Fazemos o mesmo discurso dele (Obama): 'nos deem esta chance'."

Esta é a terceira investida carioca nas últimas duas décadas, já que postulou, sem sucesso, ser sede dos Jogos de 2004 (realizados em Atenas) e de 2012 (que acontecerão em Londres – vídeo abaixo). Antes disso, o Rio já havia se candidatado à sede dos Jogos de 1936, que foram realizados em Berlim. E, no melhor estilo Barack Obama, eis o discurso da comitiva brasileira: “Sim, nós podemos receber os Jogos”.

É fato que a importância dos Jogos Olímpicos extrapola (e muito) o âmbito esportivo. Em seus primórdios, na Antiguidade, as disputas tinham forte caráter religioso, de culto a deuses pagãos, além de denotarem também a valorização da beleza estética.

Já em sua versão moderna, iniciada em 1896, em Atenas, o caráter religioso e o culto ao corpo deixaram de ser levados em consideração. Em contrapartida, os Jogos adquiriram fortes contornos de embate político-ideológico, no intuito de mostrar e/ou reafirmar a soberania e a visão de mundo das nações vencedoras.

Há, no entanto, outro ponto muito interessante a ser analisado na Era Moderna das Olimpíadas: a grande importância de ser sede dos Jogos. Não são poucos os exemplos de que, mais do que a maior competição esportiva do mundo, as Olimpíadas configuram também a maior ação de Comunicação do mundo.

Tal enfoque requerer que consideremos uma premissa fundamental da comunicação: é imprescindível que ela esteja alicerçada sobre pilares sólidos, pois só assim a mensagem que se pretende passar poderá se sustentar. E, claro, quando não há esta base de sustentação, os argumentos acabam, invariavelmente, sendo contraditos. Isto é inevitável. Duas edições, especialmente, me vêm agora à mente para exemplificar os ruídos que podem ocorrer caso não haja uma base efetivamente sólida para a mensagem que se quer passar.

Em 1936, Berlim foi a sede dos Jogos. Numa Alemanha em franco crescimento e com o Nazismo amplamente aceito e difundido, não é difícil imaginar que a propaganda nazista se apropriaria dos Jogos com o intuito de mostrar ao mundo o poder do III Reich e a supremacia da raça ariana. Pois bem, coube a um jovem afro-americano conferir um emblemático golpe àquela mensagem: Jesse Owens conquistou 04 medalhas no atletismo e levou Hitler e Cia. à loucura.

Jesse Owens: um "ruído" incontestável na mensagem do III Reich

Jesse Owens: um "ruído" incontestável na mensagem do III Reich

72 anos mais tarde, as Olimpíadas tiveram como sede a mais nova potência mundial: a China. Os Jogos de Pequim-2008 tinham a intenção inegável de mostrar ao mundo que a China era sim a mais nova superpotência mundial. Nada melhor, então, do que impressionar pela organização, pelas magníficas arenas e por um invejável desempenho esportivo. No entanto, a grandiosidade do espetáculo não foi suficiente para passar a borracha na ampla falta de liberdade de expressão sustentada pelo governo e tampouco deixou passar batido questões como a poluição, que chegou até a por em xeque a realização de algumas modalidades. Logo, nem o grande investimento feito se mostrou capaz de sustentar uma mensagem não completamente condizente com a realidade.

Agora pode ser a vez da tese canarinha ser posta em xeque. O “sim, nós podemos” verde e amarelo saberá, dentro de algumas horas, se terá uma chance de ser testado – caso o Rio seja eleito sede das Olimpíadas de 2016 – ou se não passará de um discurso derrotado no pleito do COI.

Caso nos seja dado o direito/obrigação de realizar este evento, creio que imediatamente uma pergunta estará à espera de resposta: “Sim, nós podemos. Mas a que custo?” Sem pretender ser irônico, mas sendo, digamos, sutilmente tendencioso, acho válido lembrar que já temos a bagatela de R$ 150 milhões, provindos dos cofres públicos, para serem considerados nesta resposta. Enfim, nos resta, agora, esperar e torcer (?)…

Rodrigo Pezzotta

Só podia ser ideia de político…

Se existe uma coisa mais batida que falar em web 2.0, é falar (mal) do cenário político brasileiro. E nossos governantes parecem realmente empenhados em nos dar motivos e mais motivos para deboches, desdéns e insatisfações.

Infelizmente, os sucessivos escândalos só servem para, crescentemente, distanciar a população da esfera política. O desânimo e o descrédito da população em relação aos políticos é, certamente, um forte indício desta cisão (que, entre outras coisas, é absurda, já que eles são os representantes que nós escolhemos!). Como é  evidente que uma discussão neste campo nos permitiria fazer deste post praticamente uma bíblia – o que, além de cansativo, destoaria do foco do blog, voltarei minha atenção para uma recente pérola que os engravatados de Brasília nos proporcionaram: a tentativa de estender à web as regulamentações eleitorais vigentes para a TV e para o rádio.

O texto, presente na reforma eleitoral (que chegou a ser aprovado pelo Senado), dispunha o seguinte:

Art. 57-D. Os conteúdos próprios das empresas de comunicação social e dos  provedores de internet devem observar o disposto no art. 45”.

Por sua vez, o art. 45 prevê que:

Art. 45. A partir de 1º de julho do ano da eleição, é vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário:

I – transmitir, ainda que sob a forma de entrevista jornalística, imagens de realização de pesquisa ou qualquer outro tipo de consulta popular de natureza eleitoral em que seja possível identificar o entrevistado ou em que haja manipulação de dados;

II – usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação, ou produzir ou veicular programa com esse efeito;

III – veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes;

IV – dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação;

V – veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos;

VI – divulgar nome de programa que se refira a candidato escolhido em convenção, ainda quando preexistente, inclusive se coincidente com o nome do candidato ou com a variação nominal por ele adotada. Sendo o nome do programa o mesmo que o do candidato, fica proibida a sua divulgação, sob pena de cancelamento do respectivo registro.

No entanto, com a queda da Lei de Imprensa, no último dia 30 de abril, tal proposição se tornou completamente inconstitucional, uma vez que o texto final deste julgamento deixa mais do que explicitado o caráter livre da web. O trecho a seguir é parte do resumo do texto final (enviado pelo ministro do STF, Carlos Ayres Britto, para publicação no Diário Oficial, no último dia 02 de setembro) e não deixa dúvidas:

[…] Silenciando a Constituição quanto ao regime jurídico da internet, não há como se lhe recusar a qualificação de território virtual livremente veiculador de ideias, debate, notícia e tudo o mais que se contenha no conceito essencial da plenitude de informação jornalística no nosso país.

Deste perigo a web parece, então, resguardada. Mas, na realidade, o que mais me chamou a atenção em tudo isso, foi o fato de que, ao cogitar impor esta ou aquela sanção ao conteúdo veiculado na internet, os políticos simplesmente mandaram às favas uma imensa utilidade que esta poderia ter – para eles e para o Brasil: auxiliar na reaproximação entre a esfera política e a população.

Ok, eu sei que quando digo “população” me refiro à fração dela que tem acesso à rede. Sei também que em um país como o Brasil, o distanciamento e a ignorância política são muito mais interessantes do que a informação e o debate, uma vez que colaboram – e muito – na manutenção do status quo. Mas, mesmo assim, seguirei meu pensamento baseado na premissa de que existem políticos íntegros que, de fato, querem dar uma nova cara à política brasileira.

Para estes, então, a grande rede é/pode ser uma aliada e tanto. E não precisamos ir muito longe para atestarmos isso. Vejamos: um pronunciamento, seja ele sobre o que for, seja de qual político for, é praticamente uma licença para mudar de canal ou dar aquele pulinho à cozinha ou ao banheiro, não? Em contrapartida, seguir um político pelo twitter é algo bastante aturável, para dizer o mínimo – eu, particularmente, acho muito interessante (clique aqui para saber quais políticos já tem perfil no twitter). E o mesmo pensamento pode ser estendido à blogs e demais mídias sociais.

Estas mídias, enfim, ao invés de serem alvos de restrições, seriam/serão muito mais úteis aos políticos se pensadas como plataformas viabilizadores do debate, da exposição de ideias, da saída da inércia em que nos encontramos. Utopias a parte, há muito potencial democrático nessas mídias (mesmo com as ressalvas outrora feitas aqui). Quanto aos políticos, já não afirmo com tanta segurança que existem muitos potenciais interessados nessas utilizações. De qualquer forma, acho que há o suficiente para começarmos.

Rodrigo Pezzotta

Por mais do mesmo

Recentemente, os profissionais de Jornalismo foram acometidos por uma novidade bastante polêmica: o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão. A decisão tomada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), no último dia 17 de junho, tem como principal fundamento a questão de que a exigência representada pelo diploma é inconstitucional, tendo sido imposta na época do Regime Militar como forma de limitar o número de vozes ativas – e, conseqüentemente, de possíveis vozes discordantes ao regime.

Outro argumento usado pelo relator Gilmar Mendes para fundamentar a decisão é o de que “[…] danos a terceiros não são inerentes à profissão de jornalista e não poderiam ser evitados com um diploma.” Embora não seja por aqui que quero enveredar, parece-me bastante pertinente uma ressalva ao dito por Mendes. Para tanto, recorro à John Locke e sua Lei da Opinião, ou Lei da Reputação. Segundo Locke, existem 03 tipos de leis: a Lei Divina, a Lei Civil e a Lei da Opinião.

A primeira tem Deus como legislador e diz respeito às normas divinas, ao julgamento do bem e do mal em nossas ações; a Civil, por sua vez, refere-se às normas jurídicas presentes no convívio social; já a Lei da Opinião trata do que é considerado virtude ou vício em determinada sociedade. Ela, portanto, confere importância ao juízo feito pelos demais, uma vez que “ninguém poderia agüentar o desprezo e a não consideração de seus pares.”

Ora, então vejamos: uma atuação leviana e antiética de um jornalista pode sim gerar danos a terceiros, não? Como que antevendo um questionamento deste tipo, o relator afirmou também que “[…] as notícias inverídicas são grave desvio da conduta e problemas éticos que não encontram solução na formação em curso superior do profissional.” E tal alegação, acredito, é fortemente questionável, posto que o papel da graduação, mais do que conferir conhecimentos acerca da técnica envolvida no exercício da profissão, é formar um profissional preparado para atuar de maneira ética, sempre comprometido em levar à sociedade informações confiáveis e verídicas.

Seja como for, a medida coloca o Jornalismo, legalmente, nas mesmas condições de outro curso da área de Comunicação Social: o curso de Publicidade e Propaganda. Já para Relações Públicas, ainda existe, teoricamente, a exigência do diploma – teoricamente, pois basta bater na porta de qualquer Departamento de Comunicação ou RP para se certificar de que isto não é seguido à risca. A questão que quero abordar é, exatamente, a da importância dada, atualmente, ao diploma ou, mais precisamente, à formação acadêmica do futuro profissional.

Falando um pouco da minha experiência, como aluno da Universidade de São Paulo convivi com um curso voltado, basicamente, para a formação teórica do aluno – o que, devo dizer, é um balde de água fria para a grande maioria dos ingressantes. Seja pela gana de exercer a profissão, seja pela falta de maturidade ou interesse em perceber a importância do conteúdo passado, muitos concluem, apressadamente, que só há uma saída: a prática, ou seja, acelerar a entrada no mercado de trabalho.

Embora eu não possa dizer que sou um grande exemplo de dedicação às aulas, vejo claramente que esta saída cria um círculo vicioso bastante delicado:

  1. O aluno, desanimado com as aulas, opta em acelerar sua entrada no mercado de trabalho;
  2. Empresas e agências demandam serviços operacionais, os quais serão realizados por estes jovens universitários;
  3. Estando em uma empresa ou agência, inevitavelmente o aluno terá contato com a prática e esta, por sua vez, lhe servirá como conhecimento;
  4. Este tipo de conhecimento, mais rapidamente fixável e diretamente ligado à sua atuação profissional, passa a ser o conhecimento valorizado pelo aluno;
  5. Com isso, o conhecimento acadêmico acaba ficando em segundo plano, pois muitas vezes não é algo tão diretamente ligado à prática ou tão facilmente fixável;
  6. Ao aconselhar futuros ingressantes, sem dúvida estes alunos porão o conhecimento prático acima do teórico-acadêmico;
  7. E, por fim, isto só colaborará para o desânimo dos novos alunos com o curso – o que nos leva de volta ao tópico 01.

Sem dúvida, este modelo merece ressalvas. A primeira delas é que toda a generalização é burra – logo (e evidentemente), o ciclo não se aplica a todos os alunos. A segunda é que, de fato, há problemas, tanto na grade curricular quanto com o corpo docente, que colaboram decisivamente para o desânimo dos alunos. Outro ponto importante é que não se pode negar a importância da prática e, mais do que isso, o apelo que o exercício da profissão tem – ainda mais quando acrescentamos a esse apelo a remuneração. Também é pertinente salientar que, ao falar de “serviços operacionais”, não quero dizer que eles não devam fazer parte de um estágio – seria estúpido dizer isso –, mas considero uma pena que determinadas empresas deixem a cargo dos estagiários somente este tipo de tarefas.

Ressalvas feitas, acho imprescindível perceber que, neste contexto, o mercado se alimentará de profissionais que terão como base somente, ou majoritariamente, o próprio mercado. Não que isto seja ruim para os empregadores, mas certamente contribui – e muito – para a produção de funcionários-padrão. Contribui, assim, para que se crie mais do mesmo. Sem novidades, sem contestações. Apenas mais do mesmo (o que não significa necessariamente algo ruim, mas que muito provavelmente significará escassez de inovações).

Assim sendo, vejo que a discussão verdadeiramente importante sobre o diploma e seu valor deve ser travada não no STF, mas sim nas salas de aula, por alunos, docentes e coordenadores de curso. Isso sim proporcionará menos do mesmo – ou melhor, mais do novo.

Rodrigo Pezzotta

Antes tarde demais do que nunca

Acho que todos já viveram situações em que se depararam com pessoas que tornam o cumprimento de uma obrigação uma espécie de mérito. Desde que passei a freqüentar reuniões de condomínio, por exemplo, sempre me incomodei com moradores que falavam em alto e bom som: “Nunca deixei de pagar o condomínio” ou “Sempre paguei o condomínio em dia”. Invariavelmente, me vinha à cabeça o mesmo pensamento: “Ok, não fez mais que a sua obrigação!”

Foi exatamente este pensamento que me acometeu quando tomei conhecimento da nova campanha da Telefônica SP,  o Telefônica em Ação. Mas, antes de tratar da campanha em si, é válido conhecermos um pouco da empresa em questão.

A Telefônica SP atua no mercado brasileiro desde 1998, quando comprou a Telesp, empresa estatal de telefonia do Estado de São Paulo. Possui 12 milhões de clientes de telefonia fixa e 2,1 milhões de clientes de internet banda larga, o Speedy. Ela pertence ao Grupo Telefônica, que é um dos 03 maiores conglomerados de telecomunicações do planeta, com atuação em 23 países e receita líquida superior a 20 bilhões de reais em 2007. Estamos, portanto, falando de uma líder de mercado.

Mais do que ser líder em seu segmento, a empresa também figura no topo de outro ranking. Este, no entanto, não lhe deve ser motivo de orgulho: o de empresas mais reclamadas da Fundação Procon-SP. Segundo dados obtidos junto à Assessoria de Imprensa da fundação, desde 1998 a Telefônica SP figura entre as 05 empresas mais reclamadas, com exceção aos anos de 2003 e 2004. Desempenho realmente louvável, não? Veja aí:

  • Entre 1998 e 2001: 1º lugar;
  • 2002: 4º lugar;
  • 2003 e 2004: não figurou entre as 05 mais reclamadas;
  • 2006 a 2008: 1º lugar.

Feita a devida contextualização, vamos então falar da campanha propriamente dita. Ela, basicamente, é uma tentativa de transformar um mea culpa da empresa em prestação de contas sobre o que está sendo feito para acabar com os problemas referentes ao mau-atendimento prestado aos clientes e ao déficit técnico do Speedy.

Peça para revista da campanha "Telefônica em Ação"

Peça para revista da campanha "Telefônica em Ação"

Disse lá em cima que meu pensamento ranzinza das reuniões de condomínio veio à mente porque, sendo bem claro, demorou muito para a campeã de reclamações tomar alguma atitude compatível com o tamanho do problema – bem, na realidade, se é compatível ou não, precisaremos aguardar algum tempo para saber ainda.

Seja como for, há de se ter algum respeito e conferir algum mérito à iniciativa. Embora não seja mais do que obrigação tudo o que a Telefônica SP está fazendo, vejo claramente um ponto positivo: ela está fazendo (assim como, dando o braço a torcer, aceito que um morador que paga, ao menos paga – e não atrapalha as contas do condomínio). Ou seja, há conteúdo por detrás da ação. Há, enfim, o que comunicar, o que informar. E isso traz, implicitamente, uma questão muito presente nas Relações Públicas: a questão ética. Para falar sobre isso vou, aqui, me ater a dois pontos que, diga-se de passagem, estão inter-relacionados.

O primeiro diz respeito a dois trechos que considero importantíssimos no Código de Ética dos Profissionais de Relações Públicas, mais precisamente em seu artigo 2º, que dispõe sobre o que é vetado ao profissional de RP. São eles:

d) Disseminar informações falsas ou enganosas ou permitir a difusão de notícias que não possam ser comprovadas por meio de fatos conhecidos e demonstráveis; e

f) Divulgar informações inverídicas da organização que representa.

Já o segundo ponto que quero tratar se relaciona com as alíneas acima pois, na realidade, é sustentado por elas. Valendo-me de uma analogia, costumo dizer que vejo a Comunicação – e as Relações Públicas, mais especificamente – como a cereja do bolo. Para deixar claro, o bolo pode ser entendido como a organização ou o produto que comunica. De forma alguma esse pensamento desmerece ou diminui a importância desta área. O que quero dizer com essa analogia é que considero imprescindível que toda e qualquer Comunicação, seja ela de uma empresa ou de um produto, trabalhe somente ações, valores e princípios que, de fato, sejam fundamentados.

Por exemplo, no caso da Telefônica SP, seria absurdo que ela implementasse uma campanha como o Telefônica em Ação sem que houvesse efetivamente esforços e ações para melhorar o atendimento e o serviço prestado. Os reflexos negativos de se comunicar algo inverídico seriam, invariavelmente, piores do que a continuação da inércia da empresa frente a estas questões.

De panfletos do comércio local a grandes campanhas de mega-empresas, não é raro vermos uma Comunicação pautada em valores bacanas e atraentes, mas não condizentes com a realidade. Por isso, mesmo sendo a Telefônica SP a autora da campanha e mesmo já estando mais do que tarde para que ela fizesse essas melhorias, me parece que ela merece um pontinho por isso. Antes tarde demais do que nunca, não?

Rodrigo Pezzotta

Colaboraram: Renata Maygton (que sugeriu o tema para este post) e Silvia H. C. (Assessora de Imprensa da Fundação Procon-SP)

É preciso mais do que (poder) ver para crer

Teoricamente, a campanha/promoção atual do jornal “O Estado de São Paulo” chega ao final na próxima segunda-feira, dia 10 de agosto.

Com o mote “Se hoje a informação é de graça, qual o valor do conhecimento?”, o Estadão, mais uma vez, assume uma postura ofensiva em relação às mudanças contemporâneas pelas quais os jornais passam. Vale lembrar que há dois anos, este mesmo jornal veiculou uma campanha bastante controversa, na qual, para ressaltar sua credibilidade, punha em xeque a credibilidade dos blogs. À época, como não poderia deixar de ser, a repercussão na grande rede foi bastante negativa. A campanha, diga-se de passagem, era realmente bastante agressiva e – pior – estupidamente generalizadora.

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A campanha vigente novamente trata de credibilidade – de reafirmar a credibilidade do jornal, na verdade. No entanto, justiça seja feita, esta é tratada de maneira bem mais inteligente, à medida que propõe ao futuro cliente que decida quanto pagar no primeiro mês de assinatura – e que, prolongando o raciocínio, ao desfrutar do conteúdo adquira a percepção de que o valor da mensalidade do periódico é, de fato, condizente com o conhecimento que se recebe.

Dito isto, chego ao ponto que me fez escrever o presente post: a questão da credibilidade na internet – pano de fundo, como já falado, da campanha aqui abordada.

Como é de conhecimento de todos, atualmente a internet permite acesso aos mais diversos tipos de conteúdos, sejam eles áudio, vídeo, imagens, textos, entre outros. Tudo está ao alcance das mãos, ou melhor, dos cliques. E, mais do que ter acesso, podemos, como e quanto quisermos, atuar como produtores de conteúdo.

E, se por um lado, a possibilidade de qualquer um de nós sermos geradores de conteúdo é a grande característica da internet atual, por outro temos de atentar para o fato de que quando todos podem participar, fica difícil, a princípio, conferir credibilidade a todo o conteúdo a que se tem acesso. Como já dito por aqui no post sobre Walter Cronkite, hoje a busca por boa informação não está mais na confiança em um meio, mas sim na busca infindável por algo bom em um mar de mediocridade.

Os jornais, embora passem por um momento de transformação (que, pode-se dizer, tem fortes contornos de crise em muitos países), ainda veem como seu maior ativo a credibilidade que, em geral, lhes é conferida. Segundo dados de pesquisa qualitativa feita pelo Instituto Ipsos Marplan e divulgada durante o 7º Congresso Brasileiro de Jornais, realizado em agosto do ano passado, os leitores dos jornais impressos ainda o consideram indispensáveis. Segundo este estudo, “o que mais agrada no jornal é que ele é matutino, palpável, tradicional, detalhado e abrangente. São essas características que conferem ao meio o grande pilar que é a credibilidade”.

Já com relação à internet, não podemos deixar de levar em consideração os inúmeros estudos que mostram solidamente o crescimento de seu uso como fonte de informação. Em alguns países, como os EUA, ela já é, inclusive, tida como a principal e mais confiável fonte. Neste contexto, é válido pontuar também a importância do amadurecimento e desenvolvimento da blogosfera – que, além de crescer a cada ano, tem ganhado corpo e buscado, crescentemente, entender e otimizar sua função na conjuntura atual.

Fato é que, no mar de mediocridade que ainda existe na web, gradativamente os conteúdos de qualidade vem à tona. E isso é um processo em curso, que certamente está longe de assumir traços finais, mas que também incontestavelmente já alterou o cenário que tinhamos no início da década de 1990.

Acredito que nem o mais ferrenho jornalista considere as mídias sociais um fenômeno que possa passar batido e que não leve a um rearranjo do cenário de distribuição e busca por conteúdo confiável. Assim como não acho que seja possível ouvir, nem do maior entusiasta da grande rede, que esta trará, futuramente, 100% de material de credibilidade.

Em geral, projeções de um futuro onde jornais e mídias sociais conviverão e serão complementares me parecem as mais plausíveis. E os caminhos que levarão a tal realidade já são conhecidos: aos jornais cabe o exercício de se readaptar, se atualizar; e às mídias sociais, cabe a tarefa de, cada vez mais, produzir conteúdo relevante e diferenciá-lo do lixo que seguir sendo publicado.

Rodrigo Pezzotta

Constituição 2.0: uma iniciativa plenamente democrática?

Foi lançada, no último dia 11 de julho, em Portugal, pelo Instituto da Democracia Portuguesa (IDP), a Constituição 2.0 – projeto que visa à construção interativa de uma Constituição aberta e, para tanto, usará ferramentas colaborativas e interativas ao dispor dos utilizadores da Internet para criar uma Constituição viva para uma sociedade dinâmica.

As ferramentas utilizadas para a iniciativa são duas plataformas muito conhecidas hoje no mundo da internet:

Durante a ocasião, um dos organizadores do evento fez a seguinte colocação:

“Reconhecemos que as redes sociais na Internet se apresentam como uma ferramenta crucial para a sociedade civil se organizar e criar consensos sobre as questões fundamentais para o avanço do país.”

Debate de lançamento da iniciativa Constituição 2.0, no Museu das Comunicações de Lisboa

Debate de lançamento da iniciativa Constituição 2.0, no Museu das Comunicações de Lisboa

A iniciativa, sobretudo, mostra mais uma vez os reflexos da Web 2.0 (eu sei que ouvir essa expressão até irrita… mas paciência – aqui ela precisa ser citada) na sociedade contemporânea. Nesta era marcada pelo acesso ilimitado a conteúdos dos mais diversos tipos, bem como pela elaboração de materiais colaborativos, á disposição de qualquer um que acesse a grande rede, tudo convida à participação, à exposição da opinião e ao debate sobre os mais variados assuntos.

No entanto, há uma questão que não pode passar despercebida nesta reflexão: o fato de que tudo está “à disposição de qualquer um que acesse a grande rede”. Talvez o ponto que levanto fique mais explícito se mexermos um pouquinho na frase: tudo está “à disposição somente de quem acesse a grande rede”.

Ao pensarmos nos desdobramentos que iniciativas como uma Constituição 2.0 poderiam ter, a questão da exclusão digital, impreterivelmente, tem de ser levada em consideração. Segundo dados de 2007 do IBGE – Países@, apenas 35,20% dos brasileiros, por exemplo, tem acesso à internet. Em Portugal, país de origem da Constituição 2.0, os números não diferem muito: apenas 40% dos habitantes possuem acesso à world wide web.

É evidente que não se pode negar a realidade que os new media representam, tampouco ignorar que estamos em uma era que já tem (e terá cada vez mais) suas relações sociais amplamente influenciadas por estes meios. E, neste ponto, parece-me válido recorrer a Manuel Castells e sua teoria da network society para elucidar o impacto da exclusão social no mundo em que vivemos.  Com esta teoria, Castells interpreta a sociedade contemporânea como:

“[…] uma sociedade que se move da configuração substancialmente vertical das burocracias que governaram a humanidade por milênios – exércitos, estados, grandes empresas – para ir em direção a uma organização em rede.”

E esta mudança empreende também uma alteração nas relações de poder, pois fazer parte da rede – ou seja, estar dentro – se torna mais importante do que estar sobre na estrutura piramidal.

Assim sendo, aqueles que não estão dentro, os excluídos digitais, passam a estar à margem da sociedade. Por isso uma proposta como a Constituição 2.0 se mostra tão complexa.

Entendo que iniciativa lusitana está completamente alinhada com a lógica da network society e a considero um exemplo incrível de produção de material colaborativo promovido pelas redes sociais. No entanto, é importante que não deixemos de ter em vista que o processo de expansão do acesso à internet ainda está em curso em muitos países – estando, na maioria deles, longe de atender à maior parte da população. E, por isso, acredito que por enquanto é difícil que se use a internet como mecanismo de exercício pleno da democracia. Por enquanto…

Rodrigo Pezzotta