Andando para trás

Sem nenhum grande buzz na comunicação ultimamente, me chamou a atenção ontem um curioso caso de, digamos, ma fé da Americanas.com. Sendo hoje talvez a mais conhecida loja de varejo eletrônico do Brasil, é de se espantar que seja justamente ela a responsável por algumas práticas vergonhosas das quais falarei um pouco.

americanascom

Em post no blog Cyberlawyer, o editor relata uma experiência que teve. Ao ver uma promoção do box de DVDs do Friends na página principal, tentou comprá-lo, mas foi surpreendido por outro preço na hora do pagamento. Após algumas investigações, melhor explicadas no próprio blog, conclui-se que é realmente uma mentira barata para atrair compradores – ou otários, como estes devem ser chamados no escritório dos caras.

Mas o que impressiona é a estratégia de comunicação da Americanas.com no twitter, descoberta pelo editor do blog ao procurar alguns retweets sobre seu post. Acredito que vale a pena dar uma conferida aqui. Chega a ser hilário. Pra quem ficou com preguiça ou de alguma maneira não captou o absurdo, há uma série de perfis falsos, com nomes e fotos de gente de verdade, que tecem elogios ininterruptamente à Americanas.com, lotando a busca por @americanascom boas opiniões.

Sim, não é o primeiro caso que vemos de uma empresa que, definitivamente, não entendeu o potencial das redes sociais. Esse caso, no entanto, merece destaque por um único motivo: ele vem justamente de uma empresa que foi extremamente competente em formular um negócio eletrônico e da qual se espera, portanto, competência em questões de internet. Ledo engano.

Mas é um engano bastante elucidativo. Costumamos brincar com toda essa verborragia de termos marketeiros sobre internet e tudo o mais, mas esse caso deixa bastante claro que web 2.0 é mais que motivo de piada pra quem entende o que é: é motivo de desgraça pra quem não entende.

Faço questão de usar o odioso termo web 2.0 para enfatizar que ela traz sim uma mudança. Sobretudo quando se vê essa bem sucedida empresa fundada nos primórdios da internet no Brasil empregar uma comunicação tão tosca quanto essa. Vê-se claramente uma publicidade anacrônica tentando subsistir em um ambiente que simplesmente não é compatível com seus métodos. O twitter não é apenas um facilitador de panfletagem. Divulgar um preço na página principal e cobrar outro propositalmente não só é anti-ético, é ilegal.

doveAlguns se aproximam da verdade, contanto que ela venda.

Falsidade não é algo intrínseco à propaganda. Ela é praticada na propaganda tradicional porque os métodos que o consumidor tem para evitá-la e denunciá-la são precários. Quando se emprega esses princípios em redes sociais o que se vê é uma empresa de respeito se rebaixando a práticas que eram comuns em salas de bate-papo do UOL ou Terra, no início da década. Deplorável.

A verdade é que os defeitos existentes na propaganda tradicional estão tão arraigados em nossa concepção de publicidade que o mercado está de cabeça para baixo frente à perspectiva de ter que fazer propaganda como ela sempre deveria ter sido: um ambiente de contato entre anunciantes e consumidores, visando beneficiar ambos. Infelizmente isso ainda está distante da indústria da dissimulação que se criou, mas os meios para que se alcance essa concepção ideal de propaganda estão surgindo, se é que já não existem.

A web foi um avanço tecnológico. A web 2.0 é um avanço ideológico. Eis porque ela é a grande responsável pelas drásticas mudanças que assolam o mercado da publicidade (e tantos outros). Assim como há ações bem feitas que nos indicam direções a serem tomadas, há casos como esse da Americanas.com que nos indicam por onde não ir. E se há uma direção para a qual não sei vai, é para trás no tempo.

Jannerson Xavier

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4 Responses to “Andando para trás”


  1. 1 Marcelo Bulgueroni 06/10/2009 às 16:23

    Caro Jannerson,

    Recebi o pingback do seu artigo e fiquei feliz de ver seu bom conteúdo. A frase “esse caso deixa bastante claro que web 2.0 é mais que motivo de piada pra quem entende o que é: é motivo de desgraça pra quem não entende” é certeira.

    A “Web 2.0” vem permitindo abusos exatamente pela ignorância do poder de atuações cruzadas que essa permite. Tal poder pode ser visto em utilização tanto em causas legítimas como por puro lucro, caso do aberrante exemplo que detectamos…

    Um abraço e obrigado pela referência, é muito bom saber que não estamos sozinhos na indignação.

  2. 2 Bárbara DZ 06/10/2009 às 16:35

    Realmente deplorável!

    Aqui vai um exemplo oposto, de bons investimentos e boas ideias, da marca Nestlé, que buscou se renovar e se adaptar às atualizações virtuais. Além disso, aproveitou a comunicação digital para aproximar-se dos seus consumidores por meio de um assunto extremamente oportuno, atual e condizente com a marca: a boa alimentação.

    http://www.aberje.com.br/novo/acoes_noticias_mais.asp?ID=1817

    Um beijo. E parabéns pela volta do blog! Haha

  3. 3 Rafael Prieto 07/10/2009 às 11:01

    Que palhaçada.

    Mas eu duvido que esse caso do Twitter seja único, aliás, bem longe disso. Só que a Americanas “conseguiu” mostrar pra tdo mundo que tda essa brincadeira é uma mentira.

  4. 4 Renata Maygton 07/10/2009 às 17:28

    Depois desse post eu entendi porque existia um canal de “ouvidoria” e porque este não foi capaz de me responder quando eu fiquei putíssima com a Americanas (que responde pela Blockbuster) quando me cobraram R$20 porque um infeliz não olhou o QuickDrop.

    Sério, depois desse episódio, eu evito consumir em Americanas, seja vísica ou online, porque só a raiva que me traz novamente já não compensa qualquer eventual “oferta”. E lendo o post, só enfatizo meu repúdio a esta maledeta!

    E tenho dito!

    Rê.


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