Arquivo para setembro \08\UTC 2009

Só podia ser ideia de político…

Se existe uma coisa mais batida que falar em web 2.0, é falar (mal) do cenário político brasileiro. E nossos governantes parecem realmente empenhados em nos dar motivos e mais motivos para deboches, desdéns e insatisfações.

Infelizmente, os sucessivos escândalos só servem para, crescentemente, distanciar a população da esfera política. O desânimo e o descrédito da população em relação aos políticos é, certamente, um forte indício desta cisão (que, entre outras coisas, é absurda, já que eles são os representantes que nós escolhemos!). Como é  evidente que uma discussão neste campo nos permitiria fazer deste post praticamente uma bíblia – o que, além de cansativo, destoaria do foco do blog, voltarei minha atenção para uma recente pérola que os engravatados de Brasília nos proporcionaram: a tentativa de estender à web as regulamentações eleitorais vigentes para a TV e para o rádio.

O texto, presente na reforma eleitoral (que chegou a ser aprovado pelo Senado), dispunha o seguinte:

Art. 57-D. Os conteúdos próprios das empresas de comunicação social e dos  provedores de internet devem observar o disposto no art. 45”.

Por sua vez, o art. 45 prevê que:

Art. 45. A partir de 1º de julho do ano da eleição, é vedado às emissoras de rádio e televisão, em sua programação normal e noticiário:

I – transmitir, ainda que sob a forma de entrevista jornalística, imagens de realização de pesquisa ou qualquer outro tipo de consulta popular de natureza eleitoral em que seja possível identificar o entrevistado ou em que haja manipulação de dados;

II – usar trucagem, montagem ou outro recurso de áudio ou vídeo que, de qualquer forma, degradem ou ridicularizem candidato, partido ou coligação, ou produzir ou veicular programa com esse efeito;

III – veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes;

IV – dar tratamento privilegiado a candidato, partido ou coligação;

V – veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica a candidato ou partido político, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates políticos;

VI – divulgar nome de programa que se refira a candidato escolhido em convenção, ainda quando preexistente, inclusive se coincidente com o nome do candidato ou com a variação nominal por ele adotada. Sendo o nome do programa o mesmo que o do candidato, fica proibida a sua divulgação, sob pena de cancelamento do respectivo registro.

No entanto, com a queda da Lei de Imprensa, no último dia 30 de abril, tal proposição se tornou completamente inconstitucional, uma vez que o texto final deste julgamento deixa mais do que explicitado o caráter livre da web. O trecho a seguir é parte do resumo do texto final (enviado pelo ministro do STF, Carlos Ayres Britto, para publicação no Diário Oficial, no último dia 02 de setembro) e não deixa dúvidas:

[…] Silenciando a Constituição quanto ao regime jurídico da internet, não há como se lhe recusar a qualificação de território virtual livremente veiculador de ideias, debate, notícia e tudo o mais que se contenha no conceito essencial da plenitude de informação jornalística no nosso país.

Deste perigo a web parece, então, resguardada. Mas, na realidade, o que mais me chamou a atenção em tudo isso, foi o fato de que, ao cogitar impor esta ou aquela sanção ao conteúdo veiculado na internet, os políticos simplesmente mandaram às favas uma imensa utilidade que esta poderia ter – para eles e para o Brasil: auxiliar na reaproximação entre a esfera política e a população.

Ok, eu sei que quando digo “população” me refiro à fração dela que tem acesso à rede. Sei também que em um país como o Brasil, o distanciamento e a ignorância política são muito mais interessantes do que a informação e o debate, uma vez que colaboram – e muito – na manutenção do status quo. Mas, mesmo assim, seguirei meu pensamento baseado na premissa de que existem políticos íntegros que, de fato, querem dar uma nova cara à política brasileira.

Para estes, então, a grande rede é/pode ser uma aliada e tanto. E não precisamos ir muito longe para atestarmos isso. Vejamos: um pronunciamento, seja ele sobre o que for, seja de qual político for, é praticamente uma licença para mudar de canal ou dar aquele pulinho à cozinha ou ao banheiro, não? Em contrapartida, seguir um político pelo twitter é algo bastante aturável, para dizer o mínimo – eu, particularmente, acho muito interessante (clique aqui para saber quais políticos já tem perfil no twitter). E o mesmo pensamento pode ser estendido à blogs e demais mídias sociais.

Estas mídias, enfim, ao invés de serem alvos de restrições, seriam/serão muito mais úteis aos políticos se pensadas como plataformas viabilizadores do debate, da exposição de ideias, da saída da inércia em que nos encontramos. Utopias a parte, há muito potencial democrático nessas mídias (mesmo com as ressalvas outrora feitas aqui). Quanto aos políticos, já não afirmo com tanta segurança que existem muitos potenciais interessados nessas utilizações. De qualquer forma, acho que há o suficiente para começarmos.

Rodrigo Pezzotta

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Disparidades

Li, há pouco tempo, uma análise sobre a tendência de transparência na relação marca/consumidor. Apesar de eu não gostar de confiar plenamente nessas análises de tendências – até porque acho que não é esse o intuito – acabei vendo coisas que apenas vislumbrava serem possíveis e, na realidade, milhões de pessoas já estão usando. Tamanha alienação de minha parte (que não sou a pessoa mais antenada do mundo, mas dedico certo tempo a me atualizar) realmente me chocou e me fez repensar o impacto que a diversidade cultural tem sobre a comunicação.

Estamos cansados de saber que a mesma mensagem possui um potencial interpretativo tão diverso quanto os meios em que ela se propaga, seja falando de veículos, de comunidades ou de culturas. Não é novidade, então, que no geral não é bom veicular uma mesma campanha para todo o mundo (assim como não se deve adaptá-la imprudentemente) devido à altíssima probabilidade de interpretações indesejadas aflorarem. Mas se os receptores são um grande problema, o que dizer sobre os emissores?

Um material muito legal sobre o assunto é essa discussão do 3,8 sobre a performance do Brasil na categoria Cyber em Cannes desse ano, que foi pífia..

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.
A discussão continua na parte 2 e parte 3.

O vídeo reúne 12 diretores de criação online para discutir causas, conseqüências e tendências provenientes de uma atuação quase que vergonhosa. Em certo momento é levantada a questão de que a parcela do investimento em comunicação que é dedicada a campanhas online é minúscula e, por isso, as campanhas daqui seriam piores que as de lá. Ao mesmo tempo, se vê coisas como o Whopper Sacrifice, que não passa de uma boa idéia, com custo baixíssimo e resultado surpreendente. E aí?

É o grande erro das causas e conseqüências. A falta de verba para comunicação digital não é causa da performance horrível, mas sim conseqüência de uma defasagem cultural. Defasagem essa que reflete no público (baixa penetração), nos anunciantes (pouca verba) e, mais importante, nos profissionais da comunicação, que com certeza tem a capacidade, mas não foram criados para pensarem sob esse enfoque. Um fato bastante sintomático é que apenas agora se tem discutido no senado uma legislação para propaganda política online, enquanto o Obama fez a festa já no ano passado.

Creio, então, que é sim possível melhorar o desempenho do Brasil nessa área, mas também que é completamente natural ficar aquém de países desenvolvidos. A coisa piora muito quando se leva em conta que muito do que é avaliado nesse tipo de campanha – seja em Cannes ou em qualquer lugar – agora é o resultado, em contraponto ao critério criativo que era o mais importante há alguns anos. Tratando-se de cyber a mensuração não é problema, e aí é simplesmente impossível atingir os números dessas campanhas na Europa e EUA, uma vez que lá a penetração da internet é 50% e 70% respectivamente, enquanto aqui chega aos 30%. Lembrando que ter acesso à internet não é ter o hábito de usar a internet.

mcnetMcInternet está para a inclusão digital assim como os analfabetos funcionais estão para o índice de alfabetização brasileiro.

Levando isso em conta, acredito que os profissionais da área acabam comendo alguns passos ao traçar como meta “melhorar a criatividade online”. Não dá mais pra fazer uma boa campanha sem um bom público. O que é possível, com o tempo, é criar o hábito na população de usar a internet. Obviamente isso não é uma tarefa exclusiva da comunicação, mas ela tem sim uma grande influência sobre o público, e creio que é nessa direção que devemos apontar nossa criatividade. Pode parecer estúpido, mas realmente me fascina a Casas Bahia online, surgindo 300 anos depois das lojas online de todas as outras redes de varejo e com um slogan aparentemente estúpido. Ainda assim me parece suprir as necessidades da loja (coisa que não tenho certeza), e mais importante, me parece contribuir para a inclusão digital mais do que qualquer outra campanha super criativa feita pra quem já sabe navegar na internet. A Casas Bahia, aliás, é um caso de adaptação cultural extremamente bem feito, abdicando completamente de ser cool para atingir em cheio seu público.

Enfim, se no exterior são criadas pérolas da comunicação digital, é porque com certeza o bolo de campanhas medíocres é absurdamente maior que o nosso. Não adianta querermos atingir a altura que eles estão sem termos uma base tão ampla quanto a deles. Em uma área que inevitavelmente depende de questões tecnológicas e financeiras, temos que fazer o melhor possível dentro da nossa realidade. Mas também não podemos nos esquecer de fazer a nossa realidade a melhor possível.

Jannerson Xavier