Mais uma onda

Estreia nos cinemas, nessa sexta-feira, o filme A Onda, dirigido pelo alemão Dennis Gansel. O filme é baseado em uma história ocorrida com um professor de História Contemporânea do 2ª Grau, em Palo Alto, Califórnia, nos anos 60. Com dificuldade para explicar a aceitação do nazismo por parte dos alemães que não eram do Partido Nazista, ele cria um movimento desse tipo em sua sala de aula, para exemplificar. O movimento, entitulado de A Terceira Onda, sai do controle. Em 4 dias, ele já contava com mais de 300 pessoas de todas as partes da cidade, o que forçou o professor a dar um fim na brincadeira.

waveEsq: The Wave (1981). Dir: Die Welle (2008)

Um média-metragem já havia sido produzido para a TV em 1981 (disponível no Youtube, em Parte 1 e Parte 2). O que diferencia a nova produção alemã é que a experiência é transposta, mesmo que de maneira fictícia, para o período atual e para a Alemanha, berço do nazismo. Nessa adaptação, foram levados em conta, além dos costumes e da cultura, a evolução tecnológica. A ideologia é transmitida via SMS, o movimento conta com um MySpace, e por aí vai.

Me chamou a atenção, no entanto, a profundidade dessa adaptação. Ao fim do filme, fiquei com a sensação de que se os impactos dessas mudanças na comunicação fossem levados realmente a sério, talvez não fosse possível a transposição. Digo talvez porque acabei ficando com mais dúvidas que certezas. De qualquer forma, acredito que algumas coisas sejam pertinentes à comunicação.

A primeira questão é a interconectividade. No filme isso é mostrado razoavelmente bem entre os membros do grupo. Mas e o mundo lá fora? A princípio, tendi a crer que uma “lavagem cerebral” como o nazismo só era possível na época devido à falta de acesso à informação. As mídias eram massivas e relativamente fáceis de serem controladas. Fora isso, a fonte de informação de uma pessoa era reduzida a conhecidos das redondezas, o que tornaria esse tipo de controle bastante eficiente. Hoje em dia esse tipo de influencia ideológica – que precisa ser presencial – não tem como impor barreiras na comunicação digital, que conecta o mundo inteiro. Mas será que é suficiente?

Tenho a impressão que a internet não constitui um estímulo suficientemente poderoso para que se desacredite algum valor aprendido ao vivo. Quero dizer, é difícil um fórum te convencer de que alguma ação sua, ensinada por um professor (no caso do filme), está errada. Essa falta de prestígio, no entanto, não é inerente ao meio em si, mas sim ao grupo de relacionamentos que geralmente possuímos nele. Um e-mail de um desconhecido e o de um pai são e-mails do mesmo jeito, mas possuem pesos completamente diferentes. Isso traz à tona outro ponto: a credibilidade do emissor.

Foi citado, no exemplo anterior, um caso de credibilidade emocional: familiares, amigos, amantes. Mas muito mais importante para uma análise mais ampla são os papéis sociais dos emissores. Mais do que a competência propriamente dita – mas talvez em função desta – é a sociedade que dá a autoridade a determinadas entidades em assuntos específicos. Na grande maioria das vezes, damos valor às mensagens mais pelo status do emissor do que por um verdadeiro julgamento de suas capacidades. Isso ocorre nos mais variados campos de especialidade: doutores, jornalistas, astrólogos, políticos, vovós que fazem docinhos.

CPQ

Susan Boyle

Por incrível que pareça, isso também parece ocorrer com a publicidade. Certo tipo de mensagem só é aceita porque é categorizada como propaganda. Se eu dissesse a alguém – antes de ser lançado o comercial – que o KIA Soul não é um SUV, mas sim um carro design, seria motivo de riso. Como está no comercial, parece plausível. A argumentação – por mais que ela seja fruto de aprimoramento constante por décadas – só se torna possível à medida que o público aceita certo tipo de mensagem de um determinado emissor. Isso é importante, inclusive, para as formas menos ortodoxas de publicidade que, por não serem percebidas como tal, perdem essa certa autoridade em seu argumento. Algo a ser pensado.

Quanto à Onda, realmente não sei se seria possível nos dias de hoje. Por mais que eu não tenha achado a resposta, e esse post talvez tenha ficado um pouco viajado, as reflexões que o filme levanta, sobretudo da comunicação atual, são bastante relevantes. Recomendo.

Jannerson Xavier

Anúncios

3 Responses to “Mais uma onda”


  1. 1 Diego 21/08/2009 às 18:16

    Cara, só te falo uma coisa.
    ” Vc é rápido ” O filme nem saiu e vc já tem uma análise semiótica minusciosamente detalhada e etc… *medo*

    Se adianta de alguma coisa, vc convenceu o Prieto a assistir, e ele me convenceu a ir tb… então tomara que seja bom, senão vou te xingar!

    ahahouahaauo
    Bejo!

  2. 2 mateus 24/08/2009 às 12:41

    po, mandou muito na foto da susan boyle hahaha…

    e mano, denso o texto… muito bem garoto

  3. 3 Thot. 25/08/2009 às 14:12

    Quer um exemplo? eu já tinha azeitado esse post, mas a credibilidade do mateusão é tamanha que seu elogio me fez voltar atrás.
    Mas olha, se existe um emissor sem “credibilidade”, com certeza, é essa tal de propaganda.
    O carro design é fake, mentira, não dou a mínima pra KIA me falando isso. Agora ver pessoas com esse discurso, sendo elas conhecidas ou não, virtuais ou não, na certa me impactariam mais.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s





%d blogueiros gostam disto: