A utilidade do inútil

Todo mundo sabe que o Twitter está cheio de coisa inútil. Segundo estudo da Pear Analytics, 40,55% do que é twittado são “posts do tipo ‘estou comendo um sanduíche agora’”, como os próprios definiram no relatório. Além disso, 37,55% são posts de conversas, que tendem a não ser muito úteis aos não envolvidos. Mais alguma porcentagem dedicada a spams e sobra bem pouca coisa útil.

Isso, no entanto, está longe de ser uma crítica. Por mais que o Twitter ainda seja uma ferramenta recente que, além da evolução técnica das próprias ferramentas, está em evolução conceitual por parte de seus usuários – assim como ocorreu com os blogs – não acredito que esse panorama vá mudar tanto assim. Simplesmente porque ele potencializa exatamente o que mais fazemos na vida: jogar conversa fora.

Fico imaginando se fosse feita uma pesquisa semelhante com as conversas pessoais no dia-a-dia. Com certeza uma parcela esmagadora seria taxada de “inútil”. Nada mais natural, portanto, que ferramentas que possibilitem um alcance massivo para essas inutilidades virem febre. O Youtube está aí para provar. De todo o tempo que você já passou no Youtube, quanto disso foi vendo coisas que te acrescentaram algo? E parando pra pensar, algo muito semelhante ocorre também nas mídias tradicionais.

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Estudo muito legal da Ruder Finn sobre intenção de uso da internet.

Seria natural, então, mandar esse pessoal desocupado tomar vergonha na cara e ir fazer algo da vida. Mas não. Acho completamente equivocado criticar esses 40% de inutilidade no Twitter ou as bizarrices do Youtube. Ninguém vive de conteúdo relevante 100% do dia. Acho até um pouco hipócrita quando ouço gente falando que “só tem coisa inútil no Twitter” enquanto passa o dia todo no Youtube ou atualizando a página inicial do Orkut.

Apesar de tudo isso, apenas um fator me faz defender esse “fenômeno do inútil”: a infinidade de opções. Na internet, por mais que eu passe horas fazendo nada de mais, assim que eu quiser posso buscar por algo relevante. Posso ser um careta que assina 300 RSS no Reader e acha perda de tempo ler qualquer coisa que não lhe acrescente, assim como posso ser alguém que posta “meu dia está ruim, espero que melhore” no Twitter. Há espaço para todos. Coisa que não acontece na mídia tradicional. Nesse caso, essa infestação de inutilidade assume um aspecto impositivo uma vez que não se pode escolher o que se vê. São duas ou três emissoras e, muito provavelmente, cada uma estará transmitindo algo tão ruim quanto as outras.

A certeza é que o inútil dá audiência, em qualquer mídia. Na internet, vejo a inutilidade como um suporte para o que é útil – como o espaço vazio no design. São aclamadas as funcionalidades de Youtube, Twitter, Flickr, Orkut, Facebook e etc, mas nenhuma delas seria o fenômeno que é se não possibilitasse um uso despretensioso e, porque não, inútil. Fato é que pouquíssima gente está produzindo algo realmente útil para que uma ferramenta se torne um fenômeno baseada somente em conteúdo relevante. Só nos resta agradecer a todo mundo que faz coisas inúteis, porque tornam possível a existência de coisas muito úteis.

Jannerson Xavier

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3 Responses to “A utilidade do inútil”


  1. 1 Renata 18/08/2009 às 09:40

    Obrigada, jamelon, por justificar a existência do meu Twitter.
    :-):-):-)

  2. 2 leandrothot 18/08/2009 às 19:00

    Bom ponto! Mas acho todo esse maniqueísmo meio desnecessário, principalmente para nós. Afinal, muito desse material “inútil” serve (ou deveria) de estímulo para boas idéias.

    A que bom seria se os publicitários olhassem com outros olhos para essa infinidade de coisas inúteis do twitter (e da vida real). Com certeza nosso trabalho seria muito mais relevante e encaixado no contexto das pessoas.

  3. 3 Bárbara DZ 19/08/2009 às 00:17

    “Simplesmente porque ele potencializa exatamente o que mais fazemos na vida: jogar conversa fora.”

    É o termo potencializar que me preocupa um pouco. Talvez seja justamente por dar tanta ênfase (e glória) ao “inútil” que muita coisa boa acaba não recebendo estímulo e incentivo para ser produzida.
    Além disso, entra no que o Thot comentou: a existência duas partes prejudica a própria aceitação de que o “inútil” nada mais é do que nossas vidas cotidianas, o que encaixa no post como sendo, a inutilidade, portanto, totalmente útil.

    ;D


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