E o jornalismo segue em frente

Morreu, sexta-feira passada, dia 17 de Julho, Walter Cronkite. Um dos âncoras mais conhecidos da história dos Estados Unidos, ele apresentou o CBS Evening News nas décadas de 60 e 70, durante alguns dos momentos mais conturbados da história recente do país. Mais que isso, ele representa uma era de centralização do jornalismo, no qual toda a atividade do periódico – no caso o CBS Evening News – era ditada pelo editor, que também era o apresentador e, por que não, emitia uma opinião aqui e ali, seja por palavras, tons de voz ou apenas gestos sugestivos. Um exemplo, dos 5min pra frente:

Jeff Jarvis, por sua vez, é um jornalista americano que atua como blogueiro desde o 11 de Setembro. Seu blog, o BuzzMachine, denuncia uma série de problemas com companhias – geralmente relacionados a problemas pessoais que ele teve – e, enfim, aborda o mundo de um ponto de vista bastante “2.0”. Mesmo longe de ser o principal representante, Jarvis é ferrenho defensor das possibilidades de integração que a internet proporciona, incluindo o jornalismo.

“Sem desrespeitar Cronkite, mas estou feliz que tenha passado a era do âncora oráculo”.

Isso é o que Jarvis twittou na ocasião da morte de Cronkite. É impossível dizer o que ele quis dizer exatamente com isso. Ainda assim, sabendo o perfil desses dois jornalistas, não é difícil especular alguns significados, o que me parece gerar algumas questões com implicações bastante profundas acerca da credibilidade versus acessibilidade de informações. Vejam bem, não sou jornalista, mas acredito sim que essa questão colabore decisivamente na compreensão do campo da comunicação como um todo.

O que me parece mais decisivo na crítica de Jarvis é a centralização do jornalismo, o “oráculo”. Isso, mais do que um avanço exclusivo do campo do jornalismo, é um avanço na comunicação como um todo. Se antes tínhamos domínio absoluto de mídias de massa onde um emissor falava o que bem entendia, hoje temos a internet, na qual todos falam o que bem entendem, e vêem o que lhes interessa. De fato isso parece muito atrativo, mas estaria qualquer pessoa apta a emitir sua opinião assim?

Não estou questionando o direito, mas sim a aptidão. Ora, não deve ser a toa que se estuda tanto para ser um profissional qualificado (embora eu saiba que essa afirmação soa quase cínica no campo da comunicação). O jornalista depende da credibilidade que lhe é dada. Imagino que esta mudança do jornalismo centralizado para o democratizado se enquadre em uma tendência (que devo falar no próximo post) da troca da qualidade pela quantidade. Em mídias de massa, o custo de produção é muito alto e a competição é acirrada, portanto torna-se questão primordial a busca por qualidade nos programas. Já na internet, o custo é quase zero, então não tem problema ser algo “meia boca” porque, no máximo, o cara vai ter perdido algum tempo postando algum conteúdo que não foi visto por ninguém. Resultado: a busca por boa informação não está mais na confiança em um meio, mas sim na busca infindável por algo bom em um mar de mediocridade.

web-2-0-logos

A outra questão que me parece central é a da imparcialidade. Mais do que uma mera reflexão, a opinião é extremamente perigosa no jornalismo porque é definitiva no conteúdo passado, no recorte que será realizado e transmitido, baseado em um fato real. Em mídias estabelecidas, digamos assim, é o periódico que fala, e a qualidade de sua informação põe sua imagem em jogo. No caso de uma pessoa física que fala sobre algum evento em seu blog, o objetivo é justamente mostrar sua opinião pessoal. Por sei só, isso já tira qualquer credibilidade jornalística da grande maioria das informações que há em conteúdos colaborativos. Obviamente que se o objetivo é justamente fazer a leitura dessas opiniões pessoais mundo afora, a internet corresponde perfeitamente, enquanto as mídias tradicionais, com entrevistas e pesquisas, dificilmente atingirão tamanha precisão.

Sem dúvidas Jarvis tem seu mérito. As possibilidades que foram abertas por blogs, twitter e Cia são importantíssimas. Possibilitam, por exemplo, cobertura e instantaneidade inviáveis para um jornal tradicional, movendo suas equipes de lá pra cá. Ainda assim, acho que diferentes procedências requerem e possibilitam diferentes emissores. Assim como o destrato de companhias com consumidores é magnificamente denunciado por autônomos e seus blogs, uma correspondência de guerra ou informações internas do governo dificilmente serão cobertos com competência por essas mídias.

Mais do que competir, acredito que esses dois modelos se complementam. Jeff Jarvis tem sua parcela de razão em seu comentário no twitter. Mesmo assim não acredito que ele ache mesmo que esse “jornalismo 2.0” que ele mesmo pratica irá substituir totalmente o “jornalismo oráculo” de Walter Cronkite. Eles coexistirão, pelo menos por mais bastante tempo, alargando sempre mais nosso acesso a informações.

Jannerson Xavier

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