Arquivo para julho \29\UTC 2009

Constituição 2.0: uma iniciativa plenamente democrática?

Foi lançada, no último dia 11 de julho, em Portugal, pelo Instituto da Democracia Portuguesa (IDP), a Constituição 2.0 – projeto que visa à construção interativa de uma Constituição aberta e, para tanto, usará ferramentas colaborativas e interativas ao dispor dos utilizadores da Internet para criar uma Constituição viva para uma sociedade dinâmica.

As ferramentas utilizadas para a iniciativa são duas plataformas muito conhecidas hoje no mundo da internet:

Durante a ocasião, um dos organizadores do evento fez a seguinte colocação:

“Reconhecemos que as redes sociais na Internet se apresentam como uma ferramenta crucial para a sociedade civil se organizar e criar consensos sobre as questões fundamentais para o avanço do país.”

Debate de lançamento da iniciativa Constituição 2.0, no Museu das Comunicações de Lisboa

Debate de lançamento da iniciativa Constituição 2.0, no Museu das Comunicações de Lisboa

A iniciativa, sobretudo, mostra mais uma vez os reflexos da Web 2.0 (eu sei que ouvir essa expressão até irrita… mas paciência – aqui ela precisa ser citada) na sociedade contemporânea. Nesta era marcada pelo acesso ilimitado a conteúdos dos mais diversos tipos, bem como pela elaboração de materiais colaborativos, á disposição de qualquer um que acesse a grande rede, tudo convida à participação, à exposição da opinião e ao debate sobre os mais variados assuntos.

No entanto, há uma questão que não pode passar despercebida nesta reflexão: o fato de que tudo está “à disposição de qualquer um que acesse a grande rede”. Talvez o ponto que levanto fique mais explícito se mexermos um pouquinho na frase: tudo está “à disposição somente de quem acesse a grande rede”.

Ao pensarmos nos desdobramentos que iniciativas como uma Constituição 2.0 poderiam ter, a questão da exclusão digital, impreterivelmente, tem de ser levada em consideração. Segundo dados de 2007 do IBGE – Países@, apenas 35,20% dos brasileiros, por exemplo, tem acesso à internet. Em Portugal, país de origem da Constituição 2.0, os números não diferem muito: apenas 40% dos habitantes possuem acesso à world wide web.

É evidente que não se pode negar a realidade que os new media representam, tampouco ignorar que estamos em uma era que já tem (e terá cada vez mais) suas relações sociais amplamente influenciadas por estes meios. E, neste ponto, parece-me válido recorrer a Manuel Castells e sua teoria da network society para elucidar o impacto da exclusão social no mundo em que vivemos.  Com esta teoria, Castells interpreta a sociedade contemporânea como:

“[…] uma sociedade que se move da configuração substancialmente vertical das burocracias que governaram a humanidade por milênios – exércitos, estados, grandes empresas – para ir em direção a uma organização em rede.”

E esta mudança empreende também uma alteração nas relações de poder, pois fazer parte da rede – ou seja, estar dentro – se torna mais importante do que estar sobre na estrutura piramidal.

Assim sendo, aqueles que não estão dentro, os excluídos digitais, passam a estar à margem da sociedade. Por isso uma proposta como a Constituição 2.0 se mostra tão complexa.

Entendo que iniciativa lusitana está completamente alinhada com a lógica da network society e a considero um exemplo incrível de produção de material colaborativo promovido pelas redes sociais. No entanto, é importante que não deixemos de ter em vista que o processo de expansão do acesso à internet ainda está em curso em muitos países – estando, na maioria deles, longe de atender à maior parte da população. E, por isso, acredito que por enquanto é difícil que se use a internet como mecanismo de exercício pleno da democracia. Por enquanto…

Rodrigo Pezzotta

E o jornalismo segue em frente

Morreu, sexta-feira passada, dia 17 de Julho, Walter Cronkite. Um dos âncoras mais conhecidos da história dos Estados Unidos, ele apresentou o CBS Evening News nas décadas de 60 e 70, durante alguns dos momentos mais conturbados da história recente do país. Mais que isso, ele representa uma era de centralização do jornalismo, no qual toda a atividade do periódico – no caso o CBS Evening News – era ditada pelo editor, que também era o apresentador e, por que não, emitia uma opinião aqui e ali, seja por palavras, tons de voz ou apenas gestos sugestivos. Um exemplo, dos 5min pra frente:

Jeff Jarvis, por sua vez, é um jornalista americano que atua como blogueiro desde o 11 de Setembro. Seu blog, o BuzzMachine, denuncia uma série de problemas com companhias – geralmente relacionados a problemas pessoais que ele teve – e, enfim, aborda o mundo de um ponto de vista bastante “2.0”. Mesmo longe de ser o principal representante, Jarvis é ferrenho defensor das possibilidades de integração que a internet proporciona, incluindo o jornalismo.

“Sem desrespeitar Cronkite, mas estou feliz que tenha passado a era do âncora oráculo”.

Isso é o que Jarvis twittou na ocasião da morte de Cronkite. É impossível dizer o que ele quis dizer exatamente com isso. Ainda assim, sabendo o perfil desses dois jornalistas, não é difícil especular alguns significados, o que me parece gerar algumas questões com implicações bastante profundas acerca da credibilidade versus acessibilidade de informações. Vejam bem, não sou jornalista, mas acredito sim que essa questão colabore decisivamente na compreensão do campo da comunicação como um todo.

O que me parece mais decisivo na crítica de Jarvis é a centralização do jornalismo, o “oráculo”. Isso, mais do que um avanço exclusivo do campo do jornalismo, é um avanço na comunicação como um todo. Se antes tínhamos domínio absoluto de mídias de massa onde um emissor falava o que bem entendia, hoje temos a internet, na qual todos falam o que bem entendem, e vêem o que lhes interessa. De fato isso parece muito atrativo, mas estaria qualquer pessoa apta a emitir sua opinião assim?

Não estou questionando o direito, mas sim a aptidão. Ora, não deve ser a toa que se estuda tanto para ser um profissional qualificado (embora eu saiba que essa afirmação soa quase cínica no campo da comunicação). O jornalista depende da credibilidade que lhe é dada. Imagino que esta mudança do jornalismo centralizado para o democratizado se enquadre em uma tendência (que devo falar no próximo post) da troca da qualidade pela quantidade. Em mídias de massa, o custo de produção é muito alto e a competição é acirrada, portanto torna-se questão primordial a busca por qualidade nos programas. Já na internet, o custo é quase zero, então não tem problema ser algo “meia boca” porque, no máximo, o cara vai ter perdido algum tempo postando algum conteúdo que não foi visto por ninguém. Resultado: a busca por boa informação não está mais na confiança em um meio, mas sim na busca infindável por algo bom em um mar de mediocridade.

web-2-0-logos

A outra questão que me parece central é a da imparcialidade. Mais do que uma mera reflexão, a opinião é extremamente perigosa no jornalismo porque é definitiva no conteúdo passado, no recorte que será realizado e transmitido, baseado em um fato real. Em mídias estabelecidas, digamos assim, é o periódico que fala, e a qualidade de sua informação põe sua imagem em jogo. No caso de uma pessoa física que fala sobre algum evento em seu blog, o objetivo é justamente mostrar sua opinião pessoal. Por sei só, isso já tira qualquer credibilidade jornalística da grande maioria das informações que há em conteúdos colaborativos. Obviamente que se o objetivo é justamente fazer a leitura dessas opiniões pessoais mundo afora, a internet corresponde perfeitamente, enquanto as mídias tradicionais, com entrevistas e pesquisas, dificilmente atingirão tamanha precisão.

Sem dúvidas Jarvis tem seu mérito. As possibilidades que foram abertas por blogs, twitter e Cia são importantíssimas. Possibilitam, por exemplo, cobertura e instantaneidade inviáveis para um jornal tradicional, movendo suas equipes de lá pra cá. Ainda assim, acho que diferentes procedências requerem e possibilitam diferentes emissores. Assim como o destrato de companhias com consumidores é magnificamente denunciado por autônomos e seus blogs, uma correspondência de guerra ou informações internas do governo dificilmente serão cobertos com competência por essas mídias.

Mais do que competir, acredito que esses dois modelos se complementam. Jeff Jarvis tem sua parcela de razão em seu comentário no twitter. Mesmo assim não acredito que ele ache mesmo que esse “jornalismo 2.0” que ele mesmo pratica irá substituir totalmente o “jornalismo oráculo” de Walter Cronkite. Eles coexistirão, pelo menos por mais bastante tempo, alargando sempre mais nosso acesso a informações.

Jannerson Xavier

É tudo free!

No final de Julho, chegará ao Brasil “Free – The Future of a Radical Price”, novo livro de Chris Anderson. Editor-chefe da revista Wired, bem como autor do livro A Cauda Longa, ambas publicações não lidas por este que escreve, embora já tenho lido bastante a respeito do livro. “Free” discute e defende a tese de que a tecnologia digital invariavelmente levará os preços a zero. Apesar das críticas ácidas, o importante é a questão levantada.

É inegável que o mundo digital realmente trouxe uma revolução dos serviços gratuitos e, desde sempre, esse fenômeno esteve intrinsecamente ligado à publicidade. Desde a época em que o Nizan Guanaes fundou o provedor grátis do cachorrinho fofo, na era da internet discada, até quando o Google percebeu que podia oferecer tudo de graça, utilizando seu próprio mapeamento da internet para fazer um dos sistemas de publicidade mais eficientes do planeta. Mais que isso, a mudança de comportamento que começou no digital passou para uma série de categorias “tradicionais” de consumo, gerando diversos modelos diferenciados de negócio, quase todos com a publicidade metida no meio, de algum jeito.

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Não é difícil ver, no entanto, que esse tipo de coisa não é uma revolução no modelo tradicional de publicidade, mas apenas uma extensão. As emissoras de televisão vêm oferecendo seu serviço gratuitamente há meio século, bancadas primariamente pela venda de seu espaço publicitário. Já ficou provado que esse modelo também funciona com mídia impressa, embora não entenda muito bem porque não é tão amplamente empregado nessa área. Por que seria diferente na internet?

Apesar de já estar mais que provado que esse é um modelo mais que bem sucedido – ainda mais com as possibilidades da internet – acredito que é um pouco inocente crer que será meramente através da venda de espaço publicitário que se concretizará essa revolução que Anderson propõe. Onde fica, no meio disso tudo, a grande questão da mudança dramática que está ocorrendo entre consumidores e marcas? Onde fica a tendência de campanhas que cada vez mais não só comunicam, mas tornam-se parte ativa na vida do consumidor?

É aí, me parece, que está uma reflexão verdadeiramente inovadora e produtiva. Cada vez mais a propaganda está tomando a cara de um serviço propriamente dito. Quero dizer, você não faz download de um vídeo comercial para o seu celular, mas sim um aplicativo que cria um relacionamento com o anunciante. Você não tem mais apenas uma massiva campanha política nas mídias tradicionais, mas sim diversas ferramentas sociais facilitando a difusão ideológica diretamente de pessoa para pessoa, revolucionando a cara das campanhas políticas.

Com isso em mente, acredito piamente que a tendência é justamente o oposto do que se espera. Creio que veremos cada vez menos venda de espaços publicitários e a conseqüente geração de serviços gratuitos bancados por essa renda. Em vez disso, acredito na possibilidade da criação de serviços diretamente por anunciantes, criando canais diretos de relação com os consumidores. Claro que essa é uma questão que trás uma série de implicações, mas a criação de sites promocionais ou de relacionamento com a marca parecem estratégias que têm dado certo.

Por fim, um rápido comentário sobre livro de Chris Anderson. Se você viu o vídeo, talvez tenha ficado tão espantado quanto eu. Se crer na gratuidade generalizada através da publicidade já parecia um pouco inocente, crer na economia de doação, então, soa quase leviano, não?

De qualquer modo, que venham os serviços grátis. Eu não estou reclamando.

Jannerson Xavier

Quase uma realidade

Realidade aumentada. Tecnologia que se desenha como fenômeno no horizonte. Cada vez mais vemos campanhas que se utilizam desse recurso para gerar mídia espontânea e aumentar o interesse do público, baseado unicamente na curiosidade que as pessoas têm de ver uma tecnologia tão diferente. Mas com certeza essa abordagem de “tendência” da Realidade Aumentada (RA), no mínimo, menospreza a real dimensão dessa tecnologia. Mesmo sendo um campo com implicações muito mais vastas do que a comunicação, comecemos por aí.

Praqueles que nunca viram ou nem ouviram falar: realidade aumentada é, em resumo, uma tecnologia que permite a interação em tempo real de elementos virtuais com elementos reais, através da captação de imagens, ou outros sinais. Na prática, você entra em uma página da internet que tem um software pronto que, através da sua webcam, detecta algum elemento chave e você pode visualizar no site, você interagindo com algo que na realidade não existe.

A partir daí é fácil ver um bom potencial (agora que ele já foi explorado, claro). Embalagens viram portadoras de informações que no método tradicional de impressão seria impossível transmitir, até porque a realidade aumentada lida com um ambiente 3D.

Acho essas iniciativas ótimas. É absolutamente gratuito, só se necessita de algum equipamento básico – o que não é difícil de ser avaliado no planejamento da campanha – e é uma experiência absolutamente enriquecedora no relacionamento da marca com o consumidor.

Porém é aí que entra a questão da hype, da empolgação. Cada mídia tem seus potenciais e suas deficiências, assim como o propósito da comunicação põe em dúvida a necessidade de um aplicativo com RA.
Esta campanha da Mini, por exemplo, me faz questionar o empenho do leitor em pegar a revista, levar a frente do computador, entrar no site da campanha, para então conseguir visualizar a peça. Com certeza a mensagem é enriquecedora – que tipo de propaganda te dá um modelo em 3 dimensões do carro? – mas de nada adianta se ela não chegar ao receptor.

É inevitável, porém, que quando se faça algo pela primeira vez, outros milhões sigam o modelo, sem perceber que cada caso é um caso, confundindo referência criativa com cópia mal feita. Por isso, acho mesmo que é um uso um tanto simplista esse modelinho de “pegue tal coisa, ponha na frente da webcam, e fique assistindo a você mesmo no computador”.

A realidade aumentada pressupõe um input, predominantemente visual, a identificação de elementos chave, sobreposição de uma determinada informação com referência nesses elementos, e um output. Não é difícil ver que cada uma dessas partes tem inúmeras variáveis, resultando em uma possibilidade criativa ilimitada. Porque não lançar um aplicativo para celulares que, ao filmar a fachada de uma determinada loja (pensei, por exemplo, no McDonalds), transforma aquela loja em algo completamente novo, por exemplo? Isso é só uma idéia… Imagine o que não pode realmente ser criado.

Eu creio realmente que a realidade aumentada é algo que vai ganhar muito espaço nos próximos anos e se infiltrará em nossas vidas, em campos muito além da comunicação (até porque ela é uma ciência muito mais ampla). Fico empolgado com as possibilidades que ela cria e por isso mesmo me decepciona um pouco o uso simplista que dão a ela. De qualquer forma, tudo começa de algum lugar…

Jannerson Xavier

Somos o exército do… do quê?

Vi, já faz algum tempo, a notícia do lançamento de um novo aplicativo – ou “ferramenta para comunicação e colaboração na internet” – que o Google vai lançar no final desse ano. E apesar de já fazer uma ou duas semanas que vi isso, ainda tenho pensado bastante nas milhões de possibilidades que isso pode proporcionar.

Estou falando do Google Wave. Uma ferramenta que está sendo alardeada como revolucionária nas dinâmicas sociais na internet. Bom, é assim que a notícia chegou até mim e, na realidade, é assim que o próprio Google está comunicando. A primeira vista não me impressionou muito, mas depois de mais de uma hora de palestra sobre o novo programa pude ver o potencial absurdo disso.

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Para aqueles que, com razão, não vão ter saco de gastar 1h20 do seu dia pra entender o que é, faço um resumo: imagine uma ferramenta que, em seu mais básico, funcione como um MSN, Gmail e Google Docs ao mesmo tempo, somado a mais funcionalidades bem bacanas. Além disso, existem uma série de aplicativos que podem ser desenvolvidos para ele (já que ele será Open Source), como por exemplo um aplicativo para blogs. Então em um blog que utilizasse o Wave, um comentário seria convertido automaticamente, e em tempo real, em uma thread lá no Google Wave de quem quer que tenha adicionado o aplicativo no blog, e vice-versa.

Bom mesmo seria dar uma conferida para entender do que eu estou falando. Mas o que é importante é que ele possibilita uma convergência de dados de maneira absurda, como se todos os dados da internet fossem uma gigantesca wiki em tempo real. Um verdadeiro conhecimento coletivo. Até que algo mais revolucionário tome seu lugar, é claro.

E é essa questão do coletivo que chama atenção. De como as novas possibilidades da internet estão criando essa convergência de mentes e, talvez, trazendo de volta algo que vinha perdendo força, pelo menos em certos aspectos que serão abordados.

Estou falando das coletividades. Um grupo de pessoas unidas por algum ponto em comum. É importante frisar que essa união é consciente e voluntária, não estamos falando de categorização, de segmentação de público. O que se destaca dentre tantos “pontos em comum” existentes entre as pessoas é a ideologia, um conjunto de valores e crenças.

Porém mais importante que toda esta definição é compreender a noção de doação. A preterição do “eu” em favor do “nós”. O que digo que não existe mais – e obviamente não fui eu que criei essa idéia – é a crença real no valor coletivo acima dos valores individuais. O sacrifício em prol da causa. E exemplos da extinção desse compromisso não nos faltam. Chega a ser ridícula a busca desesperada pela tão sonhada autenticidade, a identidade pessoal. E o mundo da publicidade se refestela.

É exatamente por isso que chega a ser irônico que a internet, meio que potencializou essa “Era de Ouro do Egocentrismo”, transformando todos em celebridades, maximizando a difusão da individualidade, seja a responsável por trazer de volta a noção de uma coletividade com fim comum. Esse movimento já começou com as wikis, mas vejo que realmente a tendência é que se fortaleça cada vez mais.

Apesar de tudo isso, eu não acredito que essa “rendição ao coletivo” se dará da mesma forma de como foi um dia. Realmente não tenho pretensão de ver alguém dando a vida por alguma “causa 2.0”. E é exatamente esse o ponto: temos milhões unidos por algo, mas… pelo quê?

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Me parece realmente intrigante. Legiões de pessoas estão – e isso é fato – contribuindo em um conteúdo colaborativo, abdicando de autoria, ou seja, estão doando seu tempo, mas para qual fim? Com que objetivo?  O que move esse “sacrifício”? Apesar de não poder fazer muito mais do que conjecturar sobre a resposta, por enquanto, estou no aguardo da minha conta do Wave. Eu é que não vou ficar vendo o bonde passar.

Jannerson Xavier

O tal do blog da Petrobrás

Política da casa de vidro… Política de portas abertas…  Seja qual for a escola teórica a que nos apeguemos, a questão da transparência organizacional é tema recorrente nas Relações Públicas. Mais do que recorrente, é extremamente atual, ainda mais em tempos de web 2.0.

E, desde o último dia 02 de junho, a Petrobras passou a figurar em primeiro plano nas discussões desta seara. Nesta data, ela lançou seu blog, o “Fatos e Dados”. Nele, como a própria Petrobrás afirma, a intenção é apresentar “fatos e dados recentes da Companhia e o posicionamento da empresa sobre as questões relativas à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).”

Sergio Gabrielli: "Vocês querem transparência?"

Sergio Gabrielli: "Vocês querem transparência?"

Sensacional do ponto de vista da transparência, certo? Certo. Porém, nos atermos apenas ao fato de esta ação ser um amplo e bem articulado passo no sentido da transparência organizacional não contempla plenamente o assunto. Grande parte da repercussão inicial do blog da estatal diz respeito ao fato de, nele, a empresa publicar perguntas e pedidos de informação de jornalistas, o que, como bem define Rogério Christofolleti em seu blog Monitorando, “provoca uma situação nova nas relações entre fontes e jornalistas no país, já que pode prejudicar investigações sigilosas, alertar concorrentes sobre matérias em andamento ou mesmo evidenciar que os veículos de comunicação distorcem ou corrompem algumas informações ao divulgá-las.”

As reações à isto, como não poderiam deixar de ser, foram imediatas. A Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), em nota oficial, disse:

“Ao agir dessa forma, a Petrobras inibe os meios de comunicação e os jornalistas que precisam verificar com a empresa informações de eventuais reportagens que serão veiculadas. A estatal deve rever essa prática para preservar um relacionamento profissional com os meios de comunicação e jornalistas, que têm o direito de manter suas apurações em sigilo antes da veiculação do produto final.”

Tendo em vista a amplitude da discussão, é fundamental, para desenvolvermos um raciocínio, que tenhamos em vista o seguinte: as possibilidades crescentes de interação e de relacionamento entre emissor e receptor que a tal web 2.0 viabiliza criam um campo vasto e rico a ser explorado pelas organizações (e o blog da Petrobras exemplifica muito bem isso). Dada essa realidade – que, convenhamos, não é mais novidade para ninguém –, é compulsório que ocorram mudanças no fluxo de informação. E o jornalismo contemporâneo tem (ou está tendo – sim, aqui cabe um gerúndio – ou terá) que aprender a conviver e lidar com isso.

É evidente que, ao manter um canal direto com seu público, a Petrobras ganha pontos (leia-se moral) com este. E isso, em tempos de crise (não esqueçamos que a Petrobras está prestes a enfrentar uma CPI – que deve ter início nesta terça-feira, dia 14 de julho) permite que menos ruídos ocorram. Vejam bem, não estou dizendo que a cobertura jornalística promove ruídos na informação, apenas estou pontuando que uma ferramenta como o blog dispensa a mediação das mídias tradicionais, o que encurta o fluxo da informação. Além disso, o “Fatos e Dados” possibilita um diálogo entre a estatal e a sociedade, o que, inegavelmente, não está ao alcance das mídias convencionais.

Não ousarei aqui promover uma conclusão, seja ela qual for. Mas casos como o blog da Petrobras deixam mais claro que o jornalismo, para sobreviver, precisa extrapolar as convenções até então vigentes e se renovar – muito embora a questão da quebra do sigilo seja delicada e mereça a devida atenção, posto que põe em xeque uma premissa jornalística. E, não obstante a isso, também evidencia o ganho de importância de um pensamento holístico de Relações Públicas em prol dos interesses de uma organização.

Rodrigo Pezzotta