Nesta sexta-feira, dia 02 de outubro, o COI (Comitê Olímpico Internacional) anunciará, em Copenhague, a cidade que receberá os Jogos Olímpicos de 2016. Tóquio, Madrid, Chicago e Rio de Janeiro são as candidatas finalistas e, segundo analistas, a representante brasileira desponta como favorita, juntamente com a americana Chicago.

Sérgio Cabral (3° da esq. p/ a dir.): "Fazemos o mesmo discurso dele (Obama): 'nos deem esta chance'."
Esta é a terceira investida carioca nas últimas duas décadas, já que postulou, sem sucesso, ser sede dos Jogos de 2004 (realizados em Atenas) e de 2012 (que acontecerão em Londres – vídeo abaixo). Antes disso, o Rio já havia se candidatado à sede dos Jogos de 1936, que foram realizados em Berlim. E, no melhor estilo Barack Obama, eis o discurso da comitiva brasileira: “Sim, nós podemos receber os Jogos”.
É fato que a importância dos Jogos Olímpicos extrapola (e muito) o âmbito esportivo. Em seus primórdios, na Antiguidade, as disputas tinham forte caráter religioso, de culto a deuses pagãos, além de denotarem também a valorização da beleza estética.
Já em sua versão moderna, iniciada em 1896, em Atenas, o caráter religioso e o culto ao corpo deixaram de ser levados em consideração. Em contrapartida, os Jogos adquiriram fortes contornos de embate político-ideológico, no intuito de mostrar e/ou reafirmar a soberania e a visão de mundo das nações vencedoras.
Há, no entanto, outro ponto muito interessante a ser analisado na Era Moderna das Olimpíadas: a grande importância de ser sede dos Jogos. Não são poucos os exemplos de que, mais do que a maior competição esportiva do mundo, as Olimpíadas configuram também a maior ação de Comunicação do mundo.
Tal enfoque requerer que consideremos uma premissa fundamental da comunicação: é imprescindível que ela esteja alicerçada sobre pilares sólidos, pois só assim a mensagem que se pretende passar poderá se sustentar. E, claro, quando não há esta base de sustentação, os argumentos acabam, invariavelmente, sendo contraditos. Isto é inevitável. Duas edições, especialmente, me vêm agora à mente para exemplificar os ruídos que podem ocorrer caso não haja uma base efetivamente sólida para a mensagem que se quer passar.
Em 1936, Berlim foi a sede dos Jogos. Numa Alemanha em franco crescimento e com o Nazismo amplamente aceito e difundido, não é difícil imaginar que a propaganda nazista se apropriaria dos Jogos com o intuito de mostrar ao mundo o poder do III Reich e a supremacia da raça ariana. Pois bem, coube a um jovem afro-americano conferir um emblemático golpe àquela mensagem: Jesse Owens conquistou 04 medalhas no atletismo e levou Hitler e Cia. à loucura.

Jesse Owens: um "ruído" incontestável na mensagem do III Reich
72 anos mais tarde, as Olimpíadas tiveram como sede a mais nova potência mundial: a China. Os Jogos de Pequim-2008 tinham a intenção inegável de mostrar ao mundo que a China era sim a mais nova superpotência mundial. Nada melhor, então, do que impressionar pela organização, pelas magníficas arenas e por um invejável desempenho esportivo. No entanto, a grandiosidade do espetáculo não foi suficiente para passar a borracha na ampla falta de liberdade de expressão sustentada pelo governo e tampouco deixou passar batido questões como a poluição, que chegou até a por em xeque a realização de algumas modalidades. Logo, nem o grande investimento feito se mostrou capaz de sustentar uma mensagem não completamente condizente com a realidade.
Agora pode ser a vez da tese canarinha ser posta em xeque. O “sim, nós podemos” verde e amarelo saberá, dentro de algumas horas, se terá uma chance de ser testado – caso o Rio seja eleito sede das Olimpíadas de 2016 – ou se não passará de um discurso derrotado no pleito do COI.
Caso nos seja dado o direito/obrigação de realizar este evento, creio que imediatamente uma pergunta estará à espera de resposta: “Sim, nós podemos. Mas a que custo?” Sem pretender ser irônico, mas sendo, digamos, sutilmente tendencioso, acho válido lembrar que já temos a bagatela de R$ 150 milhões, provindos dos cofres públicos, para serem considerados nesta resposta. Enfim, nos resta, agora, esperar e torcer (?)…
Rodrigo Pezzotta
Rodrigo,
Seus textos são incriveis!
Adoro o seu senso critico e a sua maneira de se expor.
Sobre Rio 2016, espero que o Brasil faça bonito sim, mas principalmente, que nós possamos continuar desfrutando de todo esse investimento para alem disso, depois de 2016 ..
Parabens!